Um rangido comprido de madeira e metal quebrou o silêncio da sala. Era a velha Singer de pedal, reclamando do movimento hesitante que Augusto fazia com o pé. A máquina de costura tossiu engasgada duas vezes, como se estivesse acordando de um sono de muitos anos. Um fiapo de linha pendeu da agulha enferrujada, tremendo no ar empoeirado.
Augusto passou o dorso da mão na testa, espalhando suor e pó. Estava quente, mas ele deixava a janela fechada. A claridade de meio-dia entrava por uma fresta das tábuas mal encaixadas, riscando o chão com um facho de luz ofuscante. Ele semicerrava os olhos para aquela faixa luminosa. Teimosa, insistente. Há semanas o trinco emperrara, então a janela ficava assim, entreaberta, dois dedos apenas. Do lado de fora, o mundo. Do lado de dentro, o que sobrou dele.
Luz demais irritava. Revelava a dança lenta das partículas de poeira no ar, sem destino, sem pressa. Augusto preferia a penumbra imóvel.
Na rua estreita lá fora, sons escorriam pelas paredes até ele: um pregão de vendedor de jornais, risadas de crianças ao longe, e o latido ocasional de um vira-lata manco, líder de gangue autoproclamado, que rondava a calçada se achando o dono da rua. Ninguém contestava. O mundo seguia bem vivo lá fora, mas dentro daquelas paredes quem tomava conta era o marasmo. E o marasmo não latia, não anunciava, não ria. Só ficava.
Sobre a mesa ao lado da máquina, uma xícara com borras secas de café marcava a manhã que passara. Ele a empurrou de leve, e o objeto fez um círculo lento, deixando um rastro no pó do tampo. Quase um símbolo. Quase uma frase.
O pedal rangeu de novo quando Augusto retomou o movimento. Tentava costurar um retalho grosso de brim, talvez para remendar a própria calça desgastada. Mas a agulha teimava em não perfurar direito. Cada descida falhava em atravessar todas as camadas do tecido. Ele colocou mais força no pé, e a máquina respondeu com um nhec metálico alto.
— Vambora, sô — murmurou com os dentes cerrados, como se raiasse com um burro velho.
A raiva subiu pelos braços até as mãos trêmulas. Durou um segundo. Depois desceu de volta pro lugar de onde tinha vindo, lá embaixo, onde ficava quieta a maior parte do tempo.
De repente, um estampido seco: a linha estourou. Augusto parou. Olhou a lasca de fio esbranquiçado balançando no vazio. Só um fiapo inútil pendendo.
A sala parecia que segurava o fôlego com ele.
— Merda…
Era a terceira tentativa do dia. Três linhas rompidas, três agulhas cegas. A costura não ia. Podia ser que o tecido fosse duro demais, ou que suas mãos já não tivessem mais jeito. Ou que não fosse aquilo que ele deveria estar costurando. Ele largou o retalho de lado, esfregando os dedos indicadores que doíam de guiar a costura. Os calos antigos ali já não tinham dó.
Sentou-se igual um saco de batata na cadeira de madeira, queixando-se baixo quando a coluna xiou. Ficou um tempo olhando a máquina imóvel à sua frente. A velha companheira. Ferro fundido negro, base ornamentada com arabescos cheios de pó. Tantas lembranças costuradas naquele objeto.
No canto da sala, encostado na parede, tinha um berço desmontado e uma mala velha. Sobre a mala, um pequeno par de sapatinhos gastos. Augusto desviou o olhar rápido; encarou de novo a máquina.
Com um movimento bruto, puxou a gavetinha frontal da Singer. Dentro, além de uns carretéis e algumas agulhas tortas, estava algo envolto num pano de linho amarelado. Ele hesitou, mas acabou que puxou levemente a ponta do tecido, revelando o brilho de metal polido: um revólver, pequeno, antigo, descansava ali. O cabo de madeira gasto pelo uso ou pelo tempo. Augusto não o pegava já fazia anos, mas também não largou mão dele. Ficava ali, silencioso, pesando na gaveta e na consciência.
A gaveta tinha espaço para o revólver e para as agulhas. Nada mais. Duas funções num mesmo esconderijo.
Ele empurrou a gaveta de volta com um baque, como se fechasse uma porta antes que alguma coisa saísse de lá de dentro.
Foi então que ouviu o sussurro do lado de fora da janela:
— Moço… sinhô… — A voz era miúda, rouca.
Augusto virou a cabeça na direção da fresta de luz. Viu um olho escuro espiando pelo vão da janela emperrada. Apenas um olho e metade de um rosto sujo, na altura do ferrolho.
— Quem é que taí? — ele perguntou, a voz saindo mais ríspida do que pretendia.
O olho recuou um pouco, mas logo surgiu dois olhos, o rosto todo, encostado à madeira. Era um menino, talvez uns dez anos, magro feito um graveto, cabelo emaranhado. O garoto abriu um sorriso amarelo, dentes espaçados que dava pra ver a língua, meio tímido, meio pidão.
— Boa tarde, sinhô — disse o menino, num fio de voz que mal atravessava a fresta. — O sinhô num tem umas coisa véia aí pra vender, não? Caqué coisa mesmo… pano véi, ferro, garrafa… Eu tem uns trocado.
Ele mostrava na mão ossuda algumas moedas sujas. Augusto reconheceu: o menino era um catador, daqueles que juntam cacarecos pra vender pro ferro-velho. Já o tinha visto pela rua, empurrando uma carroça improvisada. Lembrava talvez de tê-lo espantado do quintal uma vez, meses atrás, quando o menino fuçava a pilha de entulho atrás da casa. Lembrava talvez de ter gritado. Talvez não. As memórias de gritar e de não gritar tinham ficado parecidas.
— Não tenho nada pro cê, não — respondeu Augusto seco, porém sem elevar muito a voz. Sentiu um incômodo; a presença do garoto lhe trazia à boca um gosto amargo, ferrugem talvez. — Vai embora.
O menino, em vez de sumir, insistiu com cuidado:
— O sinhô num tem mesmo, não? Caqué coisa já ajuda…
Aquela vozinha arranhava os ouvidos de Augusto feito unha em telha velha. Ele fechou os olhos um instante, aspirou o ar poeirento tentando paciência. O cheiro da sala era de mofo, de café velho e de algo mais que não tinha nome, mas que se acumula em lugares onde ninguém abre porta há tempo demais.
— Só tenho tralha quebrada aqui. E tralha eu mesmo uso — mentiu, pensando nas poucas panelas amassadas, nos móveis capenga. E no que guardava na gaveta da máquina. — Vaza, vai embora.
O menino fungou do outro lado. Talvez estivesse resfriado, ou fosse decepção. Augusto sentiu um fiapo incômodo pinicar a consciência, mas o abafou logo. Não era problema dele. Já tinha suas cruzes.
Fez menção de se levantar para ir fechar de vez a janela emperrada, mas a voz tornou a soar:
— O sinhô… conserta as coisa? Eu vi o sinhô com a máquina… costura roupa, num é? — arriscou o garoto.
— Não. Quer dizer, sim, costuro, mas… não pego serviço. Tô fechado — respondeu Augusto rápido. Fechado. A palavra serviu dupla, e ele nem reparou.
Os dois ficaram em silêncio um instante. Augusto achou que agora ele desistiria. Porém, ouviu-se um estalinho, e por baixo da fresta surgiu empurrado um objeto pequeno: um ursinho de pelúcia, marrom encardido, com uma orelha faltando e a barriga aberta, espalhando algodão. O bichinho atravessou a soleira empoeirada e tombou de lado no chão da sala.
Ficou ali, de barriga aberta, olhando pro teto com olhos de botão.
— Eu pago, viu. Eu num tem muito, não, mas… — A voz do menino tremeu um pouco. — Era do meu irmãozin. Ele chorou a noite toda purque rasgou.
Augusto ficou estático, olhando o ursinho caído. A cor desbotada do brinquedo, os olhos de botão preto encarando nada. Dois pontos escuros num rosto de pano. Lembrou-se sem querer dos próprios dedos miúdos segurando um brinquedo remotamente parecido, décadas atrás… alguém, uma figura alta, tomando o brinquedo de suas mãos de criança. Depois, nada. O resto ficou enterrado e Augusto não tinha pá.
— Não trabalho de graça — murmurou, a garganta seca.
— Eu pago, sinhô — insistiu o garoto lá fora, esperançoso.
Por que aquele menino não ia embora de uma vez? Augusto respirou fundo e se levantou, enfim. A cadeira arranhou o piso com um guincho. Ele se abaixou, pegou o ursinho com dois dedos, como se fosse uma coisa frágil ou suja demais. Aproximou-o dos olhos: o rasgão na barriga deixava escapar um tufo de algodão amarelado. Uma das perninhas por um fio. Com a outra mão, empurrou a porta semiaberta. A claridade inundou a sala e o fez semicerrar os olhos.
A luz inavadiu o cômodo. Tocou a poeira, tocou o ferro da máquina, tocou o pano de linho na gaveta, tocou tudo o que vivia escondido.
Agora via o menino inteiro, em pé à sua porta, a mão espalmada com as moedinhas. Havia expectativa ansiosa no rosto encardido. Havia sujeira e cansaço também. E uma coisa que Augusto não conseguiu nomear, mas que doía de ver.
— Quanto paga? — perguntou, quase desaforado. Não sabia bem por que não mandava o garoto sumir.
O menino abriu a mão, exibindo as três moedas como um tesouro.
— Tem isso… dá pra um pão só, mas eu divido com o sinhô, eu juro.
A oferta soou ridícula. Dividir um pão duro talvez, em troca de remendar um brinquedo velho. Uma risada seca escapou do canto da boca de Augusto antes que ele contivesse. Era isso que restava? Trocar trabalho por um pedaço de pão velho, igual dois mendigos que ainda não sabiam que eram?
— Guarda essas moedas, menino. Vai precisar pro pão. — Ele devolveu o riso curto, mas sem alegria nenhuma. — Me dá esse negócio aqui.
O garoto obedeceu, guardando as moedas no bolso furado do shorts que um dia já foi calça antes de ser rasgada no joelho. O que parecia ser uma alça arrancada de uma sacolinha de plástico servia como cinto, amarrando os passantes um no outro. Augusto olhou aquilo e não disse nada. Tinha coisas que não precisavam de comentário. Deu meia-volta e foi até a mesa de costura, segurando o ursinho com certa delicadeza agora, uma delicadeza que ele não usava consigo mesmo.
Sentou-se de novo à máquina. Os olhos do menino seguiam cada movimento; ele agora espreitava pela porta aberta, porém não ousava entrar sem convite.
Augusto remexeu na caixinha de costura, escolheu uma linha grossa, bege encardido que combinaria bem com o tecido puído do brinquedo. Ajeitou os óculos que tirou do bolso da camisa e enfiou linha na agulha com dificuldade. Não era um trabalho difícil, bastava costurar a barriga aberta, reforçar a perna. Em dois minutos resolveria aquilo.
Mas suas mãos tremiam fininho. Ele sentiu.
A cada tremida, a agulha escapava ou o fio deslizava torto. Praguejou em silêncio. Por que estava nervoso? Não era nada, só uma costura trivial. Talvez fossem os olhos do menino queimando nas costas dele. Talvez fosse o peso de metal que continuava ali na gaveta, a centímetros da mão, e que não deixava os dedos esquecerem. Ou talvez o corpo soubesse de alguma coisa que a cabeça ainda não tinha admitido, e estava se adiantando.
— Então… o sinhô sabe até mexer bem, né? — arriscou o menino, tentando um diálogo.
— Shhh — silvou Augusto. Não queria conversar.
Fixou os olhos na barriga do ursinho e começou enfim a alinhavar a abertura. Pontos largos, desajeitados. Cada vez que a agulha fincava no tecido, Augusto sentia uma pontada no próprio estômago. Quis atribuir à fome do meio-dia. Não convenceu.
O menino fungava, talvez ansioso, talvez só catarro. Augusto ouvia seus pés mudando de posição na calçada, como se dançasse de impaciência. A costura andava devagar. Ponto. E mais um. E outro. E mais outro. A Singer observava, muda, com o pedal solto e a gaveta fechada.
— Meu irmãozin vai ficar feliz… — comentou o menino quase num sussurro. — Ele chama o urso de Pimpo.
— Pimpo? Que nome… — Augusto quase riu pelo nariz, mas se conteve. — Está bem estragado. Não vai ficar bonito.
— Num tem problema… Ele só quer poder segurar o Pimpo pra dormir — disse o garoto, com uma leveza resignada, como quem sabe o valor das coisas remendadas.
Augusto assentiu com a cabeça, mas não respondeu. Poder segurar pra dormir. Mordeu a língua. Deu o nó final na barriga do urso e cortou a linha com um canivete que usava para tudo. Em seguida, examinou a perninha solta. Precisaria de mais alguns pontos ali também.
Nesse momento, sentiu um toque leve em seu ombro.
O mundo girou num tranco. Augusto se levantou bruscamente, virando-se com o canivete ainda na mão. O gesto veio antes do pensamento. Veio de um lugar onde não se pensa, onde se reage, onde o corpo lembra o que a mente emparedou.
O menino tinha tomado coragem e entrado dois passos na sala escura, talvez para ver melhor. Ao se deparar com Augusto se erguendo feito bicho despertado, olhos arregalados e uma lâmina pequena na mão, o garoto deu um salto para trás.
Por um instante, ficaram congelados assim: Augusto com o canivete suspenso, o peito arfando, e o menino do outro lado da faixa de luz, com os olhos muito redondos de susto. Dois pontos negros, os olhos, fitando-o. Um bicho olhando outro bicho. Nenhum dos dois sabendo quem era a presa.
— Eu… eu só ia… — balbuciou o garoto.
Augusto sentiu o coração socando as costelas. A adrenalina do susto misturada a outra coisa mais antiga, um medo que não era do menino e não era daquele momento, subia-lhe à garganta. Piscou. Voltou a si. Percebeu a cena: um homem feito com uma lâmina na mão, ameaçando um garoto que só queria ver o urso de perto.
Abaixou o canivete devagar. As mãos estavam marcadas de tão firmes que seguravam o metal.
— Não chegue por trás assim! — ele disse duro, mas a frase saiu tremida. — Quase te furei, muleque!
O menino assentiu rápido com a cabeça, engolindo seco. Augusto viu que ele tinha deixado cair de susto as moedas de antes; três círculos opacos brilhavam perto de seu pé descalço. Então percebeu outra coisa: o garoto mancava. Talvez por isso não tivesse escapado a tempo do reflexo dele. Havia uma casca de machucado mal curado na canela, recente, e Augusto não quis pensar em como aquilo tinha acontecido. Mas pensou.
— Machucou? — perguntou de supetão, num tom quase áspero, apontando com o queixo para a perna do menino.
— Num foi nada não, sinhô — respondeu o menino, a voz fraca, coçando a canela ferida com o dedão do outro pé.
O homem trincou os dentes. Sentiu uma vontade súbita de gritar, xingar, mandar o menino para o inferno por tê-lo assustado assim. Queria despejar nele toda a raiva e toda a dor engasgadas dentro do peito durante anos. Anos. Mais anos do que o menino tinha de vida, provavelmente. E isso era o pior de tudo.
Seu rosto chegou a se contorcer, as sobrancelhas franzindo sombrias, a boca abrindo para soltar um rugido. O garoto recuou mais um passo, tenso.
Mas nada saiu.
A raiva subiu queimando e murchou no ar, igual um balão furado. Augusto sentiu foi um gosto salgado na língua. Largou o canivete em cima da mesa e passou a mão tremendo no rosto inteiro, como se quisesse esfregar fora aquela expressão terrível. Quando tirou a mão, tremia não só nas mãos, mas nas pernas. Cambaleou para a cadeira e sentou, pesado.
Baixou a cabeça, encarando o ursinho que jazia no seu colo durante toda a confusão. O pobre Pimpo, com metade da barriga costurada e a perna ainda por consertar, olhando-o com seus olhos de botão inexpressivos. Dois pontos. Duas pequenas esferas pretas.
— Desculpa — murmurou Augusto, sem saber ao certo pra quem.
O garoto nada disse. Continuava parado a poucos metros, quieto, na luz. Augusto afundou o rosto nas mãos por um segundo ou dois. Precisava recompor-se. Um homenzarrão ameaçando criança, quase tendo um troço no meio da sala. Se a vizinha visse, chamava a polícia. Se a sua mãe visse — mas a sua mãe não via mais nada há tempo.
Respirou fundo algumas vezes, sentindo o coração desacelerar. Quando conseguiu levantar o rosto de novo, viu que o garoto já estava junto a ele, bem perto, com o braço estendido. Na pequena mão suja, esticada para ele, havia um lenço amarrotado.
— Pra secar o rosto, sinhô — disse o menino, baixinho.
Só então Augusto percebeu que chorava. Uma lágrima grossa pendia de seu queixo, outra escorria perto do nariz. Pegou o lenço devagar, encostando o tecido ao rosto, enxugando sem força. O pano tinha cheiro de sol e rua. Cheiro de fora. De coisa viva.
— Eu me assustei também — disse o menino, tentando um sorriso mínimo. — Achei que o sinhô ia me machucá… Mas tá tudo bem.
Tá tudo bem. Dito por uma criança com ferida na canela e fome no bolso. Augusto mordeu o lábio e assentiu em silêncio. Não confiava na própria voz agora.
Devagar, ele voltou ao trabalho. Com os olhos marejados ainda, alinhou a perninha do ursinho e retomou a costura. O menino agachou ali perto, observando quieto, sem mais se aproximar bruscamente.
Dessa vez, Augusto enfiou a agulha com mais firmeza. Fez ponto após ponto, e não tremeu. O tecido aceitou. A linha segurou. Em poucos minutos, Pimpo tinha novamente uma perna segura no lugar. Não era bonito o remendo, mas era forte. Uma costura boa que aguenta o peso do que segura.
Ele cortou a linha e entregou o urso ao menino, sem uma palavra. O garoto abraçou o brinquedo remendado com cuidado, como quem segura algo precioso. E era. A fronteira entre o precioso e o inútil é quase sempre decidida por quem segura.
Augusto esperou o menino virar e sair. Esperou um xingamento, uma ofensa, ou ao menos um olhar de reprovação ao se despedir. Nada. O garoto, com um gesto de inocência inabalável, recolheu suas três moedas do chão, guardou no bolso e mancou até a porta. Antes de sair de vez, virou-se para Augusto e falou, sincero:
— Obrigado, sinhô. De coração.
E lá se foi, apertando o ursinho contra o peito ossudo, com uma ligeira dificuldade no caminhar mas sem hesitar. Sem olhar pra trás.
Augusto ficou vendo ele se afastar pela rua estreita até se tornar um vulto dissolvido na luz branca da tarde. Não conseguiu dizer nada em resposta. A porta continuava aberta; a claridade banhava toda a poeira da sala agora, expondo-a sem dó.
Ele encarou o retalho de brim que antes tentava costurar para si. Tantas tentativas frustradas para aquele pedaço de pano grosseiro. Puxou o tecido e o atirou no chão com força.
Um grunhido escapou de sua garganta, um som rouco que reverberou pela casa vazia. Seu rosto queimava.
Mas ao mesmo tempo, algo no peito. Era uma coisa sem nome que se movia, que se desprendia, como um caco de reboco soltando da parede: devagar, e depois de uma vez. Doendo enquanto saía.
Augusto se levantou e foi até a porta aberta, pisando firme. Sentiu o calor do sol morder-lhe a pele, os olhos arderam mas ele não desviou. Lá do outro lado da rua, uma vizinha observava com estranheza o homem que não saía de casa havia tempos. Ele a viu. Quase riu. Devia estar mesmo uma figura: camisa aberta, rosto inchado de choro, parado na luz como alguém que saiu do cinema no meio do dia e ainda não se acostumou com o mundo real.
Voltou para dentro, deixando a porta escancarada dessa vez. O sol entrava como intruso, pintando tudo com um amarelo impiedoso. A máquina de costura brilhava em pontos onde a tinta preta descascada revelava o metal por baixo. Augusto se aproximou dela, devagar, como quem se aproxima de alguém com quem precisa ter uma conversa difícil.
Abriu de novo a gavetinha.
O pano de linho ainda cobria a arma parcialmente, mas agora dava pra ver o cano curto, opaco. Augusto sentiu a ponta dos dedos formigarem. A gaveta cheirava a graxa e a tempo parado.
Por um momento longo, ficou olhando aquele objeto.
Eram incontáveis as vezes que, na calada da noite, com a cidade dormindo, abrira essa mesma gaveta e ficara só encarando o brilho metálico. Dois pontos: o cano da arma mirando o nada e o buraco do tambor vazio a seu lado. Um par de olhos escuros, como os do urso, como os do menino, como os de tudo que ficava olhando pra ele esperando uma decisão.
Mas esta noite era diferente. Esta noite era dia. A porta estava aberta. Um garoto tinha entrado na sua sala, tinha levado um susto, tinha oferecido um lenço, e tinha ido embora mancando com um urso de barriga costurada.
Augusto estendeu a mão devagar e pousou os dedos no cabo do revólver. Estava quente. O sol da porta aberta incidia ali agora, coisa que nunca acontecia.
Fechou a mão em torno do punho da arma e, num movimento decidido, retirou-a da gaveta. Pesou-a na palma. Os olhos arderam de novo, mas desta vez era uma coisa diferente. Não era vontade de parar. Era vontade de não parar.
Saiu para a rua com o revólver em punho, sem fechar a porta. Os passos ecoaram nas pedras da calçada irregular, e a vizinha que espiava arregalou os olhos e correu para dentro ao vê-lo passar armado. Augusto ouviu o baque da porta dela e pensou: é, também faria o mesmo. Um homem chorando com uma arma na mão não é uma cena que se assiste. É uma cena da qual se foge.
Mas ele não estava chorando mais. Estava caminhando. Era diferente.
A rua tinha cheiro de esgoto e de manga madura, as duas coisas misturadas num perfume que só existe em cidades que não sabem se estão vivendo ou apodrecendo. Augusto passou pela esquina onde o vira-lata líder dormia na sombra e o cachorro abriu um olho só, avaliou-o, e fechou de novo. Aprovado, ou irrelevante.
Quatro quarteirões até o ferro-velho. Quatro quarteirões que ele não caminhava há meses, talvez mais. As pernas reclamavam, não de dor, mas de espanto. O corpo estranhava o próprio movimento, como uma máquina de costura que volta a funcionar depois de enferrujar: os primeiros pontos saem tortos, mas saem.
Encontrou o garoto já perto do pátio do ferro-velho, puxando sua carroça meio vazia. Ao perceber Augusto atrás de si, o menino se sobressaltou, quase soltando a carroça.
Augusto parou a dois passos dele.
O sol do meio da tarde fazia suor pingar da testa do homem e brilhava nos olhos assustados do garoto.
Ele ergueu a mão que carregava o revólver.
O menino empalideceu. Abraçou instintivamente o ursinho contra o peito, como um escudo inútil contra tudo. E ali estavam de novo: dois pontos negros, aqueles olhos, o encarando. Os mesmos de dentro da sala. Os mesmos do ursinho. Os mesmos do cano da arma. Tudo olhando pra ele, tudo esperando.
Augusto então virou o cabo da arma para frente, estendendo-a na direção do menino como quem oferece um presente que não sabe explicar.
— Me faz um favor — disse, ofegante, a voz firme apesar do coração disparado. — Leva isso aqui. Vende lá dentro, no ferro-velho. Acho que vai te render um bom troco.
O garoto demorou uns segundos para reagir. Seus olhos iam da arma para o rosto de Augusto, depois para o ursinho em seus braços, depois de volta para a arma. Como se tentasse montar uma frase a partir de palavras soltas.
— Vai, pega logo — insistiu Augusto, balançando a arma pelo cano. — Antes que eu me arrependa.
Com muito cuidado, o menino soltou uma das mãos do urso e aceitou o revólver, segurando-o como quem pega em brasa.
— Mas… sinhô… — engasgou ele, sem saber o que dizer.
— Não é brinquedo, é coisa séria. Segura direito. Isso vale mais que garrafa velha. Vai te dar mais que algumas moedas. Vai dar pra uns muitos pães.
O garoto segurou a arma com as duas mãos agora, entendendo. E Augusto percebeu que ele entendia de um jeito que crianças daquela rua entendem: sem espanto, sem perguntas sobre de onde veio ou por que está sendo dado. Só entendia que era pesado, que valia, e que era dele agora. Os olhos brilharam de um jeito diferente, e ele afirmou com a cabeça.
— Obrigado, sinhô… Eu prometo que…
Augusto ergueu a mão espalmada, interrompendo.
— Xiu. Some daqui. Vai.
O menino obedeceu. Virou-se e entrou com hesitação pelo portão do ferro-velho, olhando ainda para trás algumas vezes, até sumir lá dentro com a arma bem segura nas mãos e o urso prensado no braço.
Augusto ficou parado onde estava, sem avançar além. O coração batia selvagem no peito, e ele pôde ouvi-lo nos ouvidos. Lá dentro, os adultos velhos que cuidavam do ferro-velho encaravam perplexos o cenário que o menino acabava de descrever.
Augusto sentiu vontade de acender um cigarro, mas não tinha nenhum no bolso, porque faz tempo que largou disso. Então ficou sem nada nas mãos. As mãos vazias, sem linha, sem agulha, sem arma, sem faca. Só mãos. Olhou pra elas como se fossem de outra pessoa.
Levantou os olhos para o céu, que era de um azul impiedoso de verão. A tontura bateu e ele precisou escorar num poste. Ficou assim por um tempo, o concreto quente nas costas, esperando a cabeça parar de girar. Dali, pôde ver o menino sair de uma padaria no final da rua com uma sacola pesada.
Quando se sentiu capaz de andar, tomou o caminho de volta para casa. Os pés moviam-se leves, embora incertos, como se testassem um chão novo. A mesma calçada de antes, mas diferente. Ou os mesmos pés, mas diferentes. Uma das duas coisas.
A porta de casa seguia aberta como deixara. Entrou. A poeira no ar agora parecia menos densa. Talvez por causa do sol entrando, talvez porque há pouco uma criança havia respirado ali dentro, movendo o ar estagnado. Talvez as duas coisas. Talvez nenhuma.
Augusto encarou a máquina de costura mais uma vez. A gaveta jazia aberta, escancarando o vazio onde antes a arma se escondia. Lá dentro só restavam as linhas, agulhas e alfinetes, brilhando ao acaso. Ele pegou o pano de linho e o largou ali mesmo, sem cobrir nada. Não tinha mais o que esconder.
Em cima da mesa, o ursinho Pimpo não estava mais. Augusto lembrou que o menino o levava nos braços. Por reflexo, olhou ao redor, meio perdido, até avistar outra coisa caída perto da cadeira: o retalho de brim, aquele do seu conserto frustrado. Estava amassado e sujo. Ele o ergueu com os dedos, notando como o tecido era grosseiro e inflexível. Lembrou que era de uma antiga farda… sua, talvez? Não conseguia recordar. Ou conseguia, mas já não importava.
Com um gesto decidido, jogou o retalho na lata de lixo. O metal fez um som oco quando o pano pesado caiu lá dentro.
Chega.
Por um instante, Augusto ficou de pé no meio da sala, sem saber o que fazer. O silêncio parecia diferente. Não mais leve. Diferente. Como uma sala que foi rearranjada de madrugada: os mesmos móveis, mas nenhum no lugar de antes.
Ele ouviu seu estômago roncar. A fome. Um pão fresco, inteiro, quem sabe um pouco de manteiga. Teve que rir baixo. Seria o primeiro alimento decente que se permitiria em dias. Permitir-se. Que verbo estranho pra quem passou tanto tempo se negando.
Saiu novamente, trancando a porta dessa vez.
As chaves tilintaram na mão.