Crônicas da Caverna

Crônicas da Caverna

  • O Movimento Forçado

    março 25th, 2026

    Quatro marcas de unha na palma da mão esquerda. Meia-lua. Meia-lua. Meia-lua. Meia-lua. Abertas durante a noite por dedos que se fecharam sobre uma coisa que o colchão não tem mais. O sangue secou nas bordas. A dor ainda está fresca.

    SISTEMA LÍMBICO – Aqui estamos novamente, meu pássaro quebrado. A coisa-de-carne ao seu redor geme. Ela geme e range e se recusa a parar de funcionar. Os tendões do pescoço esticam, as costas doem onde a vértebra encontra a vértebra e entre elas, areia. Seu coração insiste. Que motor estúpido.

    CÉREBRO REPTILIANO ANCESTRAL – Volta. Irmão. Volta pra baixo. Havia o escuro antes desse teto. Havia o oco. Não tem mancha lá embaixo. Não tem lençol cheirando a suor de três dias. Não tem ar com gosto de boca seca. Desce.

    Seus olhos estão abertos. Você não decidiu que estariam, mas estão.

    Mas os olhos já abriram. Os olhos não consultam ninguém.

    O teto tem uma mancha de infiltração no canto esquerdo. Cresceu. Você sabe porque olha para ela toda manhã.

    O ventilador gira no teto. Rangendo na terceira volta. Cada vez. Você conta: uma, duas, range. Uma, duas, range. O eixo tem folga. A porca soltou. O ventilador precisa de manutenção que ele nunca vai receber porque manutenção exigiria uma chave de fenda e a chave de fenda está na gaveta da cozinha e a cozinha fica a oito metros daqui e oito metros é longe.

    LÓGICA – O corpo está na cama. Dia útil. O computador está virado para a parede desde terça. A cadeira vazia. O trabalho começou às nove ou não começou. O gerente vai enviar uma mensagem às 10h15 com exatamente quatorze palavras. Você vai responder com seis. A internet vai ser a culpa. Quarta semana.

    INSTRUMENTO FÍSICO – QUE PORRA ESTÁ ACONTECENDO COM VOCÊ? Levanta. Levanta, seu frouxo. Senta nessa cama. Põe o pé no chão. A gravidade funciona pros dois lados, caralho: ela te empurra pra baixo e te mantém de pé. Escolhe um.

    AUTORIDADE – Você é um profissional. Aja como um.

    INSTRUMENTO FÍSICO – Cala a boca.

    Você senta. Os músculos reclamam. Ácido lático, atrofia, desuso. Os pés tocam o cimento. Frio. A sola do pé registra. O cérebro recebe. Ninguém faz nada.

    COMPOSTURA – Ombros: caídos. Mandíbula: cerrada. As mãos entre os joelhos.

    O lado esquerdo da cama. O lençol amassado na diagonal. Tem um cabelo. Escuro. Comprido. Preso no elástico do lençol, perto do travesseiro. Pode ter um mês. Pode ter mais.

    VELOCIDADE DE REAÇÃO – Não toque.

    A mão vai. A mão não escutou. Os dedos puxam o fio. O fio se solta do tecido com um som mínimo, quase uma nota.

    MEIA-LUZ – LARGA. Larga essa merda agora. O que você vai fazer com um cabelo? Guardar? Cheirar? Emoldurar? Você sabe o que tem do outro lado disso. Você sabe aonde esse fio puxa. SOLTA.

    Você segura o cabelo entre o polegar e o indicador. Contra a luz da janela. Um fio escuro de setenta centímetros suspenso no ar do quarto.

    IMPÉRIO INTERIOR – … ela estava sentada ali. Nessa cama. De costas pra janela. A luz recortava os ombros. Ela mexia no celular com as duas mãos e às vezes ria de um vídeo e o som da risada… onde foi? Estava aqui. Há um espaço onde ela sentava. O espaço está vazio. Se você colocar a mão ali, se tocar o lençol ali, ainda tem… não. Não tem. Tem o lençol. Tem a fibra do lençol e debaixo dela o colchão e debaixo dele o estrado e debaixo de tudo o chão e nenhuma camada guarda o que você está procurando.

    *O cabelo. Ela deixava cair no travesseiro. No lençol. No chão do banheiro. Você reclamava. Ela ria. A escova cheia de fios, um emaranhado escuro que ela tirava com os dedos e jogava no lixo com uma naturalidade que agora…*

    ELETROQUÍMICA – …eu tô ficando maluco aqui embaixo. Faz quanto tempo sem nicotina? Três dias? Quatro? O pulmão tá pedindo, meu irmão, o pulmão tá de joelhos no chão implorando e você tá aí segurando um cabelo contra a luz feito um cientista de filme ruim—

    VOLIÇÃO – Solta o cabelo.

    Você solta. Ele cai no chão. Demora. Fios de cabelo demoram para cair. Planando. Oscilando.

    CONCEITUALIZAÇÃO – Isso. Preste atenção nele caindo. A queda lenta de uma coisa que foi parte de alguém e agora é matéria sem endereço. Tem algo aí. Tem um poema aí. Não. Não tem um poema. Você não escreve poemas. Você trabalha em home office e não lava a fronha. Esquece.

    O celular brilha na mesa de cabeceira. A tela acende sozinha.

    VELOCIDADE DE REAÇÃO – Notificação. Promoção. Operadora. Relaxa.

    DRAMA – Oh, milorde. Que alívio! Por um segundo terrível — por um segundo que durou exatamente o tempo de um batimento cardíaco — você achou que era *ela*. Porque você configurou o bloqueio, mas também sabe, meu amo, que bloqueios são reversíveis e que as pessoas encontram caminhos e que ela mandou mensagem pelo seu amigo, e o seu amigo mostrou, porque ele é honesto demais para esconder e gentil demais para entregar sem olhar na sua cara primeiro, e a mensagem dizia…

    VOLIÇÃO – Não.

    DRAMA – …dizia que…

    VOLIÇÃO – Pare.

    DRAMA – “Sinto falta de você apesar de—”

    MEIA-LUZ – PARA! POR QUE VOCÊ FAZ ISSO? Toda manhã. Toda porra de manhã essa voz abre a mesma gaveta e tira a mesma faca e encosta no mesmo lugar. Manda ela calar a boca. MANDA.

    Silêncio.

    O ventilador: uma, duas, range.


    Você fica olhando para o chão entre os pés. Cimento queimado. Cinza. As bordas encardidas onde o pano de chão nunca chega. Tem uma formiga andando em linha reta na direção de lugar nenhum visível.

    ENCICLOPÉDIA – A formiga operária (Formicidae, subordem Apocrita) pode carregar entre 10 e 50 vezes seu próprio peso. O sistema nervoso dela consiste em um gânglio cerebroide e uma cadeia nervosa ventral, o que significa que ela está tecnicamente operando com uma fração negligenciável da capacidade cognitiva necessária para o que se definiria como “dúvida”. Ela não hesita. Nunca hesitou.

    CONCEITUALIZAÇÃO – Isso é horrível. Uma horrível alegoria. Você é a formiga. Ou você é o chão. Ou você é a coisa invisível para onde a formiga vai. Escolha uma opção e sofra de forma esteticamente coerente, pelo amor de tudo que é sagrado.

    RETÓRICA – Esteticamente coerente? Essa é a preocupação? Vamos catalogar: você está sentado de cueca numa cama com lençol sujo olhando uma formiga no chão de um quarto que cheira a roupa molhada esquecida na máquina, e a proposta é que isso tenha coerência estética?

    CONCEITUALIZAÇÃO – Sim.

    RETÓRICA – Diga isso no seu funeral.

    INSTRUMENTO FÍSICO – A formiga tá indo pra cozinha. Ela sabe onde tem comida. Você não sabe? VAI ATRÁS DELA.

    Você não vai atrás dela.


    O travesseiro. Está do outro lado da cama. Chutado durante a noite. A fronha amarelada. Tem um cheiro ali. Fraco. Lavanda misturada com alguma coisa cítrica. Embaixo do seu próprio cheiro de couro cabeludo e suor azedo. O cheiro dela. De um xampu que ela usava e que você nunca soube a marca e nunca perguntou.

    Você não lavou a fronha.

    LÓGICA – Dezessete dias sem lavar. A concentração molecular de qualquer resíduo de xampu caiu abaixo do limiar olfativo em condições normais há pelo menos dez dias. O que você está fazendo não tem amparo químico.

    IMPÉRIO INTERIOR – Mas está lá. Está lá embaixo. Se você pressionar o rosto… se você afundar o nariz na fibra… tem um vestígio. Uma camada. Enterrada. Como uma voz muito longe chamando seu nome num corredor comprido…

    *…ela passava pelo corredor. Aquele. Da escola. Você tinha treze anos ou quatorze, a memória não guarda número, guarda a luz que batia nas costas dela e o ar que mudou de temperatura e os seus pulmões que precisaram de mais espaço de repente como se o oxigênio tivesse ficado grosso…*

    MEIA-LUZ – Não vá por aí.

    IMPÉRIO INTERIOR – …e ela não te viu. Ela nunca te viu. Você era o vidro da janela do ônibus e ela passava no ponto e você olhava e o ônibus sacudia e a cada solavanco ela ficava mais longe e mais insuportavelmente

    MEIA-LUZ – EU DISSE PRA NÃO IR POR AÍ

    IMPÉRIO INTERIOR – presente.

    Silêncio de novo.

    SUGESTÃO – Talvez se você ligasse pra ela e—

    VOLIÇÃO – Não.

    SUGESTÃO – Nem terminei.

    VOLIÇÃO – Não precisa.

    EMPATIA – …uma tremenda solidão se abate sobre você. Todos no mundo estão fazendo alguma coisa sem você.


    RESISTÊNCIA – Cönfrade. Eu sei que o terreno é árduo. Olhe para os que vieram antes de você. Cada um deles carregou a merda que era dele nas costas até o topo da montanha e jogou do penhasco e desceu e carregou de novo. Toda manhã. A merda volta. Você carrega. Essa é a cerimônia. A única.

    O quarto é pequeno. Oito metros quadrados. Quando tinham dois corpos aqui os oito metros quadrados eram exatos. Agora sobram cantos. Sobra parede. Sobra o espaço entre a cama e a mesa que era onde ela ficava em pé decidindo se ia embora ou ficava e geralmente ficava e agora não fica.

    O computador virado pra parede. Você virou ele terça à noite porque a tela desligada reflete o quarto no escuro e no quarto refletido tem a cama e na cama tem o lado vazio.

    LÓGICA – Virar o computador para a parede resolve a reflexão mas não o problema. O problema continua atrás de você. O computador agora é só um computador de costas.

    INSTRUMENTO FÍSICO – A solução REAL seria dar um murro nessa tela e comprar outra. Mas você não tem grana pra tela nova. Então aceita a gambiarra.

    LIMIAR DE DOR – Bruxismo. Três semanas. A mandíbula trava quando engole. Os molares de baixo estão gastos na face oclusal. Você está triturando os próprios dentes à noite.

    A mão esquerda. Quatro marcas de unha na palma. Você olha de novo.

    ELETROQUÍMICA – Sabe o que ajudaria? Uma cerveja. Uma cerveja gelada agora resolvia pelo menos três dos seus problemas e criava só dois novos. A matemática é favorável. Tem uma vendinha na esquina que abre cedo. Eu sei que são oito da manhã. E daí? Desde quando você virou o cara que respeita horário socialmente adequado pra consumo de álcool? Desde quando você virou *qualquer* cara?

    VOLIÇÃO – Não.


    SUGESTÃO – Vá no banheiro. Lave o rosto. Água fria. Você não precisa se olhar no espelho. Você pode lavar o rosto com os olhos fechados. As pessoas fazem isso.

    Você não vai ao banheiro. Você fica.

    Da janela entra um fio de ar frio. Seus pelos arrepiam. Os do braço, os da nuca. A pele se contrai.

    CALAFRIOS – Do lado de fora, na rua debaixo, alguém abre um portão. O barulho metálico sobe pela janela e entra no quarto.

    Você congela.

    CALAFRIOS – Dobradiça velha, ferro com ferro, uma frequência aguda no final. Passos. Moto. Alguém indo trabalhar, vivendo uma terça-feira que funciona.

    *Mas esse não é o portão. O portão era outro. O portão era…*

    MEIA-LUZ – Não. Isso agora não.

    Tarde demais.

    IMPÉRIO INTERIOR – O portão fechou e você estava do outro lado. A trava encaixou. Metal contra metal. E antes disso a caixa. A caixa com as suas coisas do lado de fora. A bicicleta tombada no meio-fio. E ela do lado de dentro, com o primo, e o portão trancado, e a trava.

    RESISTÊNCIA – Você ficou de pé naquela calçada como um cönfrade que perdeu o cavalo, a espada e a dignidade na mesma batalha. Mas ficou de pé.

    INSTRUMENTO FÍSICO – Ficou de pé porque os joelhos ainda funcionavam. Se funcionassem menos, você teria sentado no meio-fio do lado da caixa e ficado ali até o sol queimar essa cara patética.

    EMPATIA – O primo. Ele olhou pra você com aquela cara… você lembra da cara dele? Ele não queria estar ali. Ele foi chamado. Ele te olhou e no fundo dos olhos dele não tinha raiva. Tinha pena. E pena era pior.

    VOLIÇÃO – Você mandou a foto pro amigo. A caixa, a bicicleta, a calçada. Não escreveu nada. O amigo veio. Não perguntou nada. Entrou no carro.

    *Isso é o que importa.*

    DRAMA – Oh, meu amo… a festa na casa dele. Parabéns, bolo, gente. Você sentou no canto. Você sorriu quando alguém olhava. A máscara magnífica! Ninguém percebeu! Ninguém percebeu que o ator principal estava sangrando por dentro, porque a maquiagem era impecável e o roteiro era: “tudo bem, tô de boa, obrigado.”

    *A plateia aplaudiu! A plateia nem sabia que era plateia!*

    *E depois — em casa — o rosto soltou. O chão recebeu você de joelhos. O travesseiro absorveu o som. O volume da caixa de som cobriu o resto. Ninguém ouviu.*

    *Cortina.*

    ENCICLOPÉDIA – A exposição prolongada a estresse agudo pode induzir uma resposta vagal que—

    INSTRUMENTO FÍSICO – CALA A BOCA.


    Você está de volta no quarto. Sentado na cama. O cabelo dela no chão perto do pé esquerdo. A formiga sumiu. Mas a memória ficou. Ela fica.

    LÓGICA – Oito anos. Uma chuteira. Seu pai. Sua bisavó disse a frase. Ele tomou o presente de volta. Não o objeto. O gesto. A chuteira voltou depois. A criança que a recebeu de volta já tinha aprendido a coisa.

    Qual coisa.

    LÓGICA – Você sabe qual coisa.

    EMPATIA – Ela se assustava. Toda vez. Você aceitava rápido demais e ela olhava pra você e nos olhos dela tinha uma coisa… confusão misturada com alívio misturada com medo. Porque no fundo ela sabia. Ela sentia. Ela não conseguia nomear, mas sentia.

    DRAMA – Uma atuação primorosa, meu amo! Só havia um problema: o ator também acreditou na própria performance. Até o dia em que sentou no chão da casa dela e se recusou a ir embora e a recusa foi tão inesperada — pra você e pra ela — que os dois ficaram paralisados.

    *E veio o primo. E veio o portão. E veio a calçada.*


    Uma, duas, range.

    O ventilador. O celular brilha e apaga e brilha e apaga. Você ainda está no quarto.

    ELETROQUÍMICA – Escuta. Eu sei que ninguém quer ouvir de mim agora. Mas tem que comer alguma coisa. Ovo. Bolacha. O resto daquele arroz de ontem. O corpo tá pedindo socorro de formas que você tá ignorando e ignorar o corpo é burrice, meu irmão. A grana tá curta, o armário tá vazio, a geladeira faz barulho de animal morrendo, eu sei, eu sei, mas um ovo frito leva três minutos e três minutos é o tempo que você gasta olhando pro teto todo dia às seis da manhã, então dá pra realocar.

    VOLIÇÃO – Levanta.

    INSTRUMENTO FÍSICO – Levanta, caralho.

    VOLIÇÃO – Não assim.

    INSTRUMENTO FÍSICO – Exatamente assim.

    O pé esquerdo empurra o chão. Depois o direito. Os joelhos estendem. Alguma coisa estala na lombar. O corpo sobe.

    De pé.

    COMPOSTURA – Torto. Mas de pé.

    CONCEITUALIZAÇÃO – Eis o homem. A vertical triste. Um monumento a absolutamente nada, erguido por

    RETÓRICA – Para.

    CONCEITUALIZAÇÃO – …eu ia dizer uma coisa bonita.

    RETÓRICA – Eu sei. Por isso parei.

    CALAFRIOS – O ar frio da janela bate no seu peito nu. A pele se arrepia. Os pelos da nuca levantam.

    *Lá fora, o sol bateu na parede do vizinho e o reboco descascado brilha como um dente lascado. A linha de ônibus passa na rua de cima. O motor diesel sacode os vidros das janelas. Numa casa vizinha, uma criança chama o cachorro pelo nome errado e o cachorro vem assim mesmo.*

    *A cidade acorda sem cerimônia. Sem esperar. Sem consultar.*

    A cozinha fica a oito metros. A torneira pinga. Pode ouvir daqui. A geladeira zumbe. O compressor faz um barulho que piora toda semana.

    Oito metros. A chave de fenda está na mesma gaveta. A torneira pinga. A formiga já chegou lá. Você ainda está aqui.

    RESISTÊNCIA – Anda. Um pé depois do outro. Você carrega o que tem que carregar. Não existe outra cerimônia.

    Você vai até lá.

    A torneira está pingando. Você abre ela. A água sai gelada. O cano velho treme. Você enche o copo.

    ELETROQUÍMICA – Deus, isso é bom. Você sente?

    A água desce. Gelada. Os dentes doem por causa do bruxismo. A garganta aceita. O estômago acorda.

    LÓGICA – Primeiro copo d’água em catorze horas.

    CALAFRIOS – A torneira pinga uma última gota depois que você fecha. A gota bate na pia de inox. O som ecoa pela cozinha vazia. Pela janela da cozinha, o céu está cinza e baixo e o vento dobra o varal da vizinha e uma camiseta molhada bate contra si mesma sem parar como uma coisa tentando aplaudir.

    Você olha pela janela.

    IMPÉRIO INTERIOR – …em algum lugar dessa cidade, ela também está acordando. Ou não. Ou já acordou. Ou não dormiu. Você não sabe. Não vai saber. A frequência que conectava vocês dois está cortada e o ar entre aqui e lá é ar e nada mais.

    VOLIÇÃO – Bebe o resto da água. Depois frita o ovo.

    Você bebe o resto da água.

  • Luto, Vazio e Reencontro

    março 24th, 2026

    A superfície do sono rejeita.
    O veredito já foi lido enquanto você nem estava na sala.
    Exilado, você acorda.

    CÉREBRO REPTILIANO ANCESTRAL – Shhh… shhh… por que subiu? Quem te chamou? Ninguém te chamou. Lá embaixo era seguro, o escuro era morno e espesso como placenta, e a consciência era um grão, um cisco, um nada bom e administrável flutuando no copo. Deixe a boca aberta. Deixe o maxilar cair. As fotos sumiram. Os nomes também. Feche… feche de volta…

    Mas algo se recusa. Uma corrente elétrica sem autoria percorre nervos que ninguém autorizou a funcionar. O sistema nervoso periférico age. Puxa. E aqui está você, de volta à superfície, puxado pelo mesmo mecanismo que faz a perna chutar quando batem no joelho.

    SISTEMA LÍMBICO – Havia alguém. Antes, quando o alarme era dispensável, quando o corpo acordava por conta de outra coisa. Um cheiro. Um som. Algo na cozinha que antecedia você, que já estava pronto quando você abria os olhos. Essa estrutura cedeu. Desapareceu a viga e o teto ficou parado no ar por um instante, como nos desenhos, antes de lembrar que deveria cair.


    A luz cinzenta da manhã te encara pela fresta da cortina. A claridade cumprindo seu turno, pontual e indiferente, como funcionária pública.
    Você se senta na beira da cama.
    As mãos pousam nos joelhos.
    Os dedos não tremem.
    Deveriam.

    LÓGICA – Não. Não deveriam. A ausência de reação motora não indica ausência de dor. O corpo está economizando recursos. Priorizou funções vitais sobre expressão emocional. Eficiente. Triste também, mas isso é dado secundário.

    ELETROQUÍMICA – Alguma coisa. Qualquer coisa. Nicotina, cafeína, C₈H₁₀N₄O₂ em qualquer forma disponível. Água quente passando por filtro de papel, aquele barulho, aquele vapor. As sinapses não ligaram direito. Estamos operando no reserva e o reserva tá seco. Combustível, cara. Antes de pensar. Antes de tudo.

    VOLIÇÃO – Ignore-o.

    Algo se descasca devagar dentro de você. Pedaços de rotina que foram colados em cima de outros pedaços de rotina, durante anos, sem que ninguém percebesse que a cola era uma pessoa. A pessoa saiu. A cola saiu junto. Os pedaços descascam. Um por um. Você assiste de dentro.

    RESISTÊNCIA – Não. Longe. Pensei que estivéssemos longe o suficiente. Errei a conta. Errei a margem. Voltamos ao epicentro quando não estávamos olhando. É só não olhar. Funciona. Sempre funcionou. Fecha.

    MEIA-LUZ – Posso…

    RESISTÊNCIA – Não.

    MEIA-LUZ – Não dá ordens pra mim. Eu sou o que te acorda no escuro quando o barulho ainda não tem nome. Sem mim você é carne esperando o golpe.

    RESISTÊNCIA – Você grita incêndio em prédio desocupado.

    MEIA-LUZ – E você tranca as portas com gente dentro.

    Um silêncio. O tipo que acontece quando duas partes de você se cansam ao mesmo tempo.

    CONCEITUALIZAÇÃO – O que é isso que estamos sentindo? Luto tem liturgia. Tem velório e flores e gente dizendo coisas com a voz baixa. Isso aqui é outra coisa. É acordar e notar que falta uma parede que você achava que era parte do terreno. Você nunca olhou para aquela parede. Nunca pensou nela como parede. Era o fundo da cena. Era o dado. E agora o dado sumiu e o cenário inteiro parece provisório. Tem algo de sublime nisso? Possivelmente. Tem algo de patético? Certamente. A verdade é que estamos sentados de cueca num colchão que precisa ser virado há seis meses tentando classificar esteticamente o próprio abandono. Raphaël Ambrosius Costeau não aprovaria.

    ELETROQUÍMICA – Você tá com fome.

    CONCEITUALIZAÇÃO – …eu estava no meio de uma—

    ELETROQUÍMICA – Fome. Estômago. Comida. Faz quanto tempo?

    O espaço onde a presença ficava ainda mantém a forma. A marca que um quadro deixa na parede depois de retirado. A tinta ao redor envelheceu. Ali ficou o formato exato do que foi tirado.

    VOLIÇÃO – Levante. Basta vertical. Um joelho, depois o outro.

    INSTRUMENTO FÍSICO – Ele tá certo. Sobe. Cada segundo sentado aí é um segundo a mais de atrofia na coxa, na lombar e na dignidade. O chão tá esperando o pé. O pé tá esperando a ordem. Dá a porra da ordem.

    Você se levanta. O corpo range. Os pés tocam o chão e o chão está gelado e o frio sobe pelas solas e chega nos tornozelos e nos joelhos e você está acordado. Agora sim.

    LIMIAR DE DOR – Aí. Os pés chegaram primeiro, como sempre. Piso frio, terminações nervosas acordando em cadeia. A conta é minha. A conta é sempre minha. Não vai melhorar quando você morrer, mas até lá, a fiação responde.

    O corredor.
    A cozinha ao fundo.

    PERCEPÇÃO – Café. O fantasma do café. A memória olfativa de café que foi feito nessa cozinha tantas vezes que o cheiro se instalou nas paredes, na fórmica, no pano de prato esquecido na bancada. Seu nariz está confundindo tempo com espaço. O presente não tem cheiro nenhum.

    EMPATIA – Olhe para esta cozinha. A caneca no escorredor que ninguém mexeu. O açucareiro com a tampa meio aberta porque ela nunca fechava direito, dizia que a tampa era teimosa, e a tampa era teimosa, e agora a tampa está meio aberta e ninguém vai fechar. A cadeira. Aquela cadeira. Encostada na mesa num ângulo que não é o que você usaria, é o ângulo dela, e o ângulo permaneceu. Um fóssil de hábito que sobreviveu à pessoa que o criou.

    RETÓRICA – Objetos não editam. Não reinterpretam. Não acordam um dia decidindo que a versão anterior do gesto era diferente do que parecia. Ficam. E é justamente esse ficar estúpido e fiel que faz a coisa ser difícil de olhar.

    IMPÉRIO INTERIOR – …fogo, água, farinha, sal. Alquimia de mãe. De avó. De quem acorda antes de você para que o mundo esteja pronto quando você chegar. E quando essa pessoa sai, as marcas de queimado no fogão continuam lá. Ninguém mais lê. Mas estão lá. Eu verifico.

    ELETROQUÍMICA – Tá. Lindo. Agora liga a cafeteira. Faz um café ruim que seja. Um café mal feito, um café sem alma, um café qualquer. As sinapses não operam com poesia. Operam com adenosina e sua bloqueadora favorita. Liga. Pelo menos isso.

    CONCEITUALIZAÇÃO – Ele tem razão. É constrangedor, mas tem. A arte é uma péssima substituta para oitenta miligramas de cafeína. Eu sei. Eu tentei.

    Você não liga a cafeteira. Você passa pela cozinha. O banheiro fica à esquerda.


    A água quente cai. Queima. O vapor sobe e embaça o espelho e enche o banheiro de branco. Você fica debaixo. O corpo aceita.

    LIMIAR DE DOR – A pele primeiro, sempre a pele primeiro. Cada terminação nervosa disparando em sincronia. A queimadura é boa. Péssimo sinal quando a queimadura é boa. Mas a fiação responde. O recibo é meu.

    ENCICLOPÉDIA – O que você sente agora é chamado de nocicepção, termo cunhado em 1906 pelo neurocientista britânico Charles Scott Sherrington para descrever a detecção neural de estímulos nocivos ou potencialmente nocivos. As terminações nervosas livres, distribuídas pela derme e epiderme, disparam sinais aferentes ao córtex somatossensorial primário quando há variação brusca de temperatura. Curiosamente, o limiar de ativação dos nociceptores térmicos situa-se entre quarenta e três e quarenta e cinco graus Celsius, o que significa que a dor não começa quando o dano começa, mas um pouco antes. Soldados napoleônicos durante a retirada de Moscou em 1812 relataram que, abaixo de certa temperatura, a dor desaparecia por completo, substituída por uma dormência que muitos descreveram como…

    ELETROQUÍMICA – Abaixa a temperatura. Aumenta a temperatura. Faz alguma coisa. Para de lecionar e resolve o problema, professor.

    ENCICLOPÉDIA – …paz. Eu ia chegar lá. Em vários sentidos.

    A água escorre. O vapor sobe. Você estende o braço e limpa o espelho com a palma da mão.

    Um rosto devolve o olhar.

    MEIA-LUZ – Tensão nos ombros. Mandíbula cerrada. Trapézio contraindo sem ordem consciente. Aquilo no vidro é o que sobrou. A guarda estava aberta antes de você entrar nesse banheiro.

    PERCEPÇÃO – Uma gota. Borda inferior do olho esquerdo. Demora. Mais que as outras. Mais que a condensação ao redor. Tem peso próprio. Hesita na curva do zigomático.

    CÁLCULO VISUAL – Condensação do espelho: uniforme, gotículas entre um e dois milímetros de diâmetro. Gota no rosto: quatro milímetros, trajetória irregular, interrompida duas vezes antes de descer pelo sulco nasolabial. A origem é lacrimal. Os dados não mentem. Você que mente para os dados.

    EMPATIA – Olhe para ele. Esse sujeito aí, do outro lado do vidro. A exaustão nesse rosto não é de hoje. Nem de ontem. Veio se instalando devagar. Começou nos cantos dos olhos, depois desceu pro maxilar, depois se espalhou pros ombros. Agora está em todo lugar.

    IMPÉRIO INTERIOR – Esse rosto no vidro embaçado… quantos outros moram ali dentro? Sobrepostos, como transparências de retroprojetor empilhadas. E debaixo de todas, bem no fundo, um rosto mais velho que o seu. Um rosto que não é o seu. Um rosto que você herdou sem assinar recibo e que agora, com a titular ausente, começa a se confundir com a sua própria estrutura.

    DRAMA – Silêncio na plateia! Silêncio solene e compulsório! Eis que se descortina, enfim, a cena magna desta produção independente sem orçamento, sem patrocinador e sem bilheteria: o protagonista, após prolongados ensaios de devastação íntima, apresenta sua grande performance diante de… uma audiência composta inteiramente por azulejos e uma toalha úmida. A direção de arte é sofrível. A iluminação, fluorescente. O roteiro carece de reviravolta, pois a reviravolta aconteceu antes do primeiro ato. E ainda assim, que intensidade! Que comprometimento com o papel! Bravo! Bravo, digo eu, que sou pago para dizer bravo, mas desta vez digo com um mínimo de sinceridade que me envergonha.

    SUGESTÃO – Repita que está tudo bem. Com convicção. A boca forma as palavras e o cérebro pode ser convencido a acreditar no que ouve da própria boca. Truque barato. Truques baratos são os que funcionam.

    RESISTÊNCIA – Cale-se. Todos. Eu conheço esse corredor. Sei cada porta e o que tem atrás de cada uma. Não precisamos abrir nenhuma. Há repetição atrás delas e a gente já está machucado o suficiente.

    VOLIÇÃO – Seguro não é parado.

    RESISTÊNCIA – Seguro é o que não sangra. Aqui não é bom. Mas aqui não cobra. Lá fora cobra. Lá fora tem cadeira vazia e caneca no escorredor e cheiro de café que não existe mais. Aqui tem vapor e vidro embaçado e um rosto que pelo menos é conhecido.

    VOLIÇÃO – Conhecido? Olhe de novo.

    RESISTÊNCIA – Toda vez que abrimos, a conta vem. Sempre. Eu somo. Eu calculo. Eu sei.

    LÓGICA – Você soma errado. Sua amostra é enviesada. Você só conta as vezes que doeu. Descarta as vezes que não doeu. Constrói a regra em cima do viés. Contabilidade fraudulenta.

    RESISTÊNCIA – E a alternativa é o quê? Continuar abrindo? Continuar tentando? Já vimos o bastante. Sabemos o fim.

    CONCEITUALIZAÇÃO – Tem algo bonito nisso, se você pensar—

    RESISTÊNCIA – Não tem.

    LIMIAR DE DOR – Ele sabe o custo. Eu passo o recibo todo dia. Manhã, tarde, madrugada. Músculo que não recebeu uso. Junta que range sem lubrificação. O peito que aperta por contenção crônica. Cada órgão com sua própria música desagradável. Esse é o inventário. O estoque não zerou.

    DRAMA – Se me permitem uma intervenção — e me permitem, porque aqui ninguém controla o elenco e o sindicato dos atores internos está em greve desde o segundo ato: a tensão está palpável. O conflito, legítimo. Mas alguém poderia, por favor, abrir uma fresta neste roteiro? Está claustrofóbico. Até o cenógrafo pediu demissão.

    ELETROQUÍMICA – Eu resolvo. Tenho soluções. Nicotina, álcool, açúcar refinado, qualquer coisa que altere a bioquímica em menos de noventa segundos. Nenhuma aprovada por junta médica. O detalhe é que funcionam. E funcionando, quem se importa com o detalhe?

    INSTRUMENTO FÍSICO – Vocês tão todos loucos. Ele tá nu molhado num banheiro discutindo filosofia de sobrevivência enquanto o piso tá frio e os músculos tão encolhendo. SAI DO CHUVEIRO. Vista uma roupa. Usa os braços. Usa as pernas. Resolve o resto depois.

    ESPRIT DE CORPS – Outros passaram por aqui. Não neste banheiro, não nesta manhã. Mas por este exato corredor interno. Em algum lugar da cidade, alguém acordou hoje com o mesmo peso nos mesmos ombros, e se levantou, e não sabia por quê, e não precisava saber. Você não conhece essas pessoas. Elas não conhecem você. Ninguém vai ligar pra ninguém por causa disso. E ainda assim, todos vocês estão de pé ao mesmo tempo, no mesmo tipo de manhã, e isso é alguma coisa.

    VOLIÇÃO – Sabemos o fim. Sabemos o custo. Mas o custo de não pagar é maior. Parar. Apodrecer com o motor ligado, gastando combustível sem sair do lugar.

    Mas você não está sozinho aqui dentro. Nunca esteve.

    IMPÉRIO INTERIOR – Ele está dizendo a verdade. Eu verifico essas coisas. Não me pergunte como. Tem a ver com frequências que não cabem em explicação.


    Você veste uma blusa. O tecido toca a pele que você mal secou. Áspero contra a umidade. Arrepia.

    COMPOSTURA – Ombros atrás. Mandíbula relaxada. O suficiente. Quem estiver do outro lado da porta não precisa saber o que aconteceu neste banheiro.

    SAVOIR FAIRE – Levante o queixo. Coluna reta. Qualquer pessoa pode ser destruída por dentro e parecer funcional por fora. Uma das técnicas mais antigas do inventário humano. E a mais barata — o que é uma vantagem considerável dado o seu patrimônio líquido atual.

    A maçaneta gira. Fria no metal. A porta se abre.


    CALAFRIOS – Sua camisa gruda no peito. Os ombros da jaqueta ficam pesados. O frio entra sob sua pele. Você se arrepia e a cidade se arrepia com você. Um céu de chumbo e estanho, baixo e pesado. O vento corre entre as costuras da sua roupa, passando os dedos pela textura do tecido. Em algum lugar a sudoeste, uma mulher abre a janela da cozinha e o ar carrega o som de pratos batendo em água. Em algum lugar mais perto, um cachorro late duas vezes e para. O cheiro de terra molhada sobe do canteiro de alguém, mas não choveu, alguém regou antes de sair, e esse gesto mínimo de cuidar de uma planta antes do trabalho atravessa o ar e chega até você. Uma frequência se alterou. Algo se moveu no tabuleiro das coisas.

    PERCEPÇÃO – Calçada irregular. Rachadura entre o segundo e o terceiro bloco de concreto, preenchida com musgo seco. Nunca reparou. Esteve ali o tempo todo. Uma folha de amendoeira presa na grade de um portão, virada para cima, expondo o verso mais claro, ainda úmida. Os pelos dos braços se eriçam. Frio não faz isso. Frio faz tremer.

    CALAFRIOS – A cidade inteira está fazendo isso. Acordando sem motivo novo. Abrindo portas, acendendo luzes, esquentando motores. Milhares de corpos seguindo rotinas cujas razões originais já foram esquecidas há anos, mantidas no ar por pura repetição. E, em algum ponto da malha urbana, você. Acrescentado à contagem dos que saíram de casa hoje. Um corpo a mais ocupando calçada, devolvendo o olhar ao céu de chumbo que não se importa, mas que também não recusa.

    O ar está úmido. O céu cinzento. Sem sol. Mas há luz. Difusa, vindo de todo lugar ao mesmo tempo.

    Você respira fundo. O ar entra e ocupa espaço. Empurra costelas. Desloca diafragma.

    VELOCIDADE DE REAÇÃO – Um passo. O equilíbrio se recalcula em tempo real. Músculos da panturrilha respondendo antes da consciência registrar a intenção de mover. O corpo sabe antes de você. Sempre soube.

    Um passo. Depois outro.
    Depois outro.

    A cadeira na cozinha continua no ângulo em que ficou.
    A caneca continua no escorredor.
    O café continua não feito.
    E você continua.

    VOLIÇÃO – Ainda dói. Vai doer amanhã. Vai doer na terça. Mas você está andando. E isso basta.

    Suficiente por hoje.

  • Dois pontos

    janeiro 14th, 2026

    Um rangido comprido de madeira e metal quebrou o silêncio da sala. Era a velha Singer de pedal, reclamando do movimento hesitante que Augusto fazia com o pé. A máquina de costura tossiu engasgada duas vezes, como se estivesse acordando de um sono de muitos anos. Um fiapo de linha pendeu da agulha enferrujada, tremendo no ar empoeirado.

    Augusto passou o dorso da mão na testa, espalhando suor e pó. Estava quente, mas ele deixava a janela fechada. A claridade de meio-dia entrava por uma fresta das tábuas mal encaixadas, riscando o chão com um facho de luz ofuscante. Ele semicerrava os olhos para aquela faixa luminosa. Teimosa, insistente. Há semanas o trinco emperrara, então a janela ficava assim, entreaberta, dois dedos apenas. Do lado de fora, o mundo. Do lado de dentro, o que sobrou dele.

    Luz demais irritava. Revelava a dança lenta das partículas de poeira no ar, sem destino, sem pressa. Augusto preferia a penumbra imóvel.

    Na rua estreita lá fora, sons escorriam pelas paredes até ele: um pregão de vendedor de jornais, risadas de crianças ao longe, e o latido ocasional de um vira-lata manco, líder de gangue autoproclamado, que rondava a calçada se achando o dono da rua. Ninguém contestava. O mundo seguia bem vivo lá fora, mas dentro daquelas paredes quem tomava conta era o marasmo. E o marasmo não latia, não anunciava, não ria. Só ficava.

    Sobre a mesa ao lado da máquina, uma xícara com borras secas de café marcava a manhã que passara. Ele a empurrou de leve, e o objeto fez um círculo lento, deixando um rastro no pó do tampo. Quase um símbolo. Quase uma frase.

    O pedal rangeu de novo quando Augusto retomou o movimento. Tentava costurar um retalho grosso de brim, talvez para remendar a própria calça desgastada. Mas a agulha teimava em não perfurar direito. Cada descida falhava em atravessar todas as camadas do tecido. Ele colocou mais força no pé, e a máquina respondeu com um nhec metálico alto.

    — Vambora, sô — murmurou com os dentes cerrados, como se raiasse com um burro velho.

    A raiva subiu pelos braços até as mãos trêmulas. Durou um segundo. Depois desceu de volta pro lugar de onde tinha vindo, lá embaixo, onde ficava quieta a maior parte do tempo.

    De repente, um estampido seco: a linha estourou. Augusto parou. Olhou a lasca de fio esbranquiçado balançando no vazio. Só um fiapo inútil pendendo.

    A sala parecia que segurava o fôlego com ele.

    — Merda…

    Era a terceira tentativa do dia. Três linhas rompidas, três agulhas cegas. A costura não ia. Podia ser que o tecido fosse duro demais, ou que suas mãos já não tivessem mais jeito. Ou que não fosse aquilo que ele deveria estar costurando. Ele largou o retalho de lado, esfregando os dedos indicadores que doíam de guiar a costura. Os calos antigos ali já não tinham dó.

    Sentou-se igual um saco de batata na cadeira de madeira, queixando-se baixo quando a coluna xiou. Ficou um tempo olhando a máquina imóvel à sua frente. A velha companheira. Ferro fundido negro, base ornamentada com arabescos cheios de pó. Tantas lembranças costuradas naquele objeto.

    No canto da sala, encostado na parede, tinha um berço desmontado e uma mala velha. Sobre a mala, um pequeno par de sapatinhos gastos. Augusto desviou o olhar rápido; encarou de novo a máquina.

    Com um movimento bruto, puxou a gavetinha frontal da Singer. Dentro, além de uns carretéis e algumas agulhas tortas, estava algo envolto num pano de linho amarelado. Ele hesitou, mas acabou que puxou levemente a ponta do tecido, revelando o brilho de metal polido: um revólver, pequeno, antigo, descansava ali. O cabo de madeira gasto pelo uso ou pelo tempo. Augusto não o pegava já fazia anos, mas também não largou mão dele. Ficava ali, silencioso, pesando na gaveta e na consciência.

    A gaveta tinha espaço para o revólver e para as agulhas. Nada mais. Duas funções num mesmo esconderijo.

    Ele empurrou a gaveta de volta com um baque, como se fechasse uma porta antes que alguma coisa saísse de lá de dentro.

    Foi então que ouviu o sussurro do lado de fora da janela:

    — Moço… sinhô… — A voz era miúda, rouca.

    Augusto virou a cabeça na direção da fresta de luz. Viu um olho escuro espiando pelo vão da janela emperrada. Apenas um olho e metade de um rosto sujo, na altura do ferrolho.

    — Quem é que taí? — ele perguntou, a voz saindo mais ríspida do que pretendia.

    O olho recuou um pouco, mas logo surgiu dois olhos, o rosto todo, encostado à madeira. Era um menino, talvez uns dez anos, magro feito um graveto, cabelo emaranhado. O garoto abriu um sorriso amarelo, dentes espaçados que dava pra ver a língua, meio tímido, meio pidão.

    — Boa tarde, sinhô — disse o menino, num fio de voz que mal atravessava a fresta. — O sinhô num tem umas coisa véia aí pra vender, não? Caqué coisa mesmo… pano véi, ferro, garrafa… Eu tem uns trocado.

    Ele mostrava na mão ossuda algumas moedas sujas. Augusto reconheceu: o menino era um catador, daqueles que juntam cacarecos pra vender pro ferro-velho. Já o tinha visto pela rua, empurrando uma carroça improvisada. Lembrava talvez de tê-lo espantado do quintal uma vez, meses atrás, quando o menino fuçava a pilha de entulho atrás da casa. Lembrava talvez de ter gritado. Talvez não. As memórias de gritar e de não gritar tinham ficado parecidas.

    — Não tenho nada pro cê, não — respondeu Augusto seco, porém sem elevar muito a voz. Sentiu um incômodo; a presença do garoto lhe trazia à boca um gosto amargo, ferrugem talvez. — Vai embora.

    O menino, em vez de sumir, insistiu com cuidado:

    — O sinhô num tem mesmo, não? Caqué coisa já ajuda…

    Aquela vozinha arranhava os ouvidos de Augusto feito unha em telha velha. Ele fechou os olhos um instante, aspirou o ar poeirento tentando paciência. O cheiro da sala era de mofo, de café velho e de algo mais que não tinha nome, mas que se acumula em lugares onde ninguém abre porta há tempo demais.

    — Só tenho tralha quebrada aqui. E tralha eu mesmo uso — mentiu, pensando nas poucas panelas amassadas, nos móveis capenga. E no que guardava na gaveta da máquina. — Vaza, vai embora.

    O menino fungou do outro lado. Talvez estivesse resfriado, ou fosse decepção. Augusto sentiu um fiapo incômodo pinicar a consciência, mas o abafou logo. Não era problema dele. Já tinha suas cruzes.

    Fez menção de se levantar para ir fechar de vez a janela emperrada, mas a voz tornou a soar:

    — O sinhô… conserta as coisa? Eu vi o sinhô com a máquina… costura roupa, num é? — arriscou o garoto.

    — Não. Quer dizer, sim, costuro, mas… não pego serviço. Tô fechado — respondeu Augusto rápido. Fechado. A palavra serviu dupla, e ele nem reparou.

    Os dois ficaram em silêncio um instante. Augusto achou que agora ele desistiria. Porém, ouviu-se um estalinho, e por baixo da fresta surgiu empurrado um objeto pequeno: um ursinho de pelúcia, marrom encardido, com uma orelha faltando e a barriga aberta, espalhando algodão. O bichinho atravessou a soleira empoeirada e tombou de lado no chão da sala.

    Ficou ali, de barriga aberta, olhando pro teto com olhos de botão.

    — Eu pago, viu. Eu num tem muito, não, mas… — A voz do menino tremeu um pouco. — Era do meu irmãozin. Ele chorou a noite toda purque rasgou.

    Augusto ficou estático, olhando o ursinho caído. A cor desbotada do brinquedo, os olhos de botão preto encarando nada. Dois pontos escuros num rosto de pano. Lembrou-se sem querer dos próprios dedos miúdos segurando um brinquedo remotamente parecido, décadas atrás… alguém, uma figura alta, tomando o brinquedo de suas mãos de criança. Depois, nada. O resto ficou enterrado e Augusto não tinha pá.

    — Não trabalho de graça — murmurou, a garganta seca.

    — Eu pago, sinhô — insistiu o garoto lá fora, esperançoso.

    Por que aquele menino não ia embora de uma vez? Augusto respirou fundo e se levantou, enfim. A cadeira arranhou o piso com um guincho. Ele se abaixou, pegou o ursinho com dois dedos, como se fosse uma coisa frágil ou suja demais. Aproximou-o dos olhos: o rasgão na barriga deixava escapar um tufo de algodão amarelado. Uma das perninhas por um fio. Com a outra mão, empurrou a porta semiaberta. A claridade inundou a sala e o fez semicerrar os olhos.

    A luz inavadiu o cômodo. Tocou a poeira, tocou o ferro da máquina, tocou o pano de linho na gaveta, tocou tudo o que vivia escondido.

    Agora via o menino inteiro, em pé à sua porta, a mão espalmada com as moedinhas. Havia expectativa ansiosa no rosto encardido. Havia sujeira e cansaço também. E uma coisa que Augusto não conseguiu nomear, mas que doía de ver.

    — Quanto paga? — perguntou, quase desaforado. Não sabia bem por que não mandava o garoto sumir.

    O menino abriu a mão, exibindo as três moedas como um tesouro.

    — Tem isso… dá pra um pão só, mas eu divido com o sinhô, eu juro.

    A oferta soou ridícula. Dividir um pão duro talvez, em troca de remendar um brinquedo velho. Uma risada seca escapou do canto da boca de Augusto antes que ele contivesse. Era isso que restava? Trocar trabalho por um pedaço de pão velho, igual dois mendigos que ainda não sabiam que eram?

    — Guarda essas moedas, menino. Vai precisar pro pão. — Ele devolveu o riso curto, mas sem alegria nenhuma. — Me dá esse negócio aqui.

    O garoto obedeceu, guardando as moedas no bolso furado do shorts que um dia já foi calça antes de ser rasgada no joelho. O que parecia ser uma alça arrancada de uma sacolinha de plástico servia como cinto, amarrando os passantes um no outro. Augusto olhou aquilo e não disse nada. Tinha coisas que não precisavam de comentário. Deu meia-volta e foi até a mesa de costura, segurando o ursinho com certa delicadeza agora, uma delicadeza que ele não usava consigo mesmo.


    Sentou-se de novo à máquina. Os olhos do menino seguiam cada movimento; ele agora espreitava pela porta aberta, porém não ousava entrar sem convite.

    Augusto remexeu na caixinha de costura, escolheu uma linha grossa, bege encardido que combinaria bem com o tecido puído do brinquedo. Ajeitou os óculos que tirou do bolso da camisa e enfiou linha na agulha com dificuldade. Não era um trabalho difícil, bastava costurar a barriga aberta, reforçar a perna. Em dois minutos resolveria aquilo.

    Mas suas mãos tremiam fininho. Ele sentiu.

    A cada tremida, a agulha escapava ou o fio deslizava torto. Praguejou em silêncio. Por que estava nervoso? Não era nada, só uma costura trivial. Talvez fossem os olhos do menino queimando nas costas dele. Talvez fosse o peso de metal que continuava ali na gaveta, a centímetros da mão, e que não deixava os dedos esquecerem. Ou talvez o corpo soubesse de alguma coisa que a cabeça ainda não tinha admitido, e estava se adiantando.

    — Então… o sinhô sabe até mexer bem, né? — arriscou o menino, tentando um diálogo.

    — Shhh — silvou Augusto. Não queria conversar.

    Fixou os olhos na barriga do ursinho e começou enfim a alinhavar a abertura. Pontos largos, desajeitados. Cada vez que a agulha fincava no tecido, Augusto sentia uma pontada no próprio estômago. Quis atribuir à fome do meio-dia. Não convenceu.

    O menino fungava, talvez ansioso, talvez só catarro. Augusto ouvia seus pés mudando de posição na calçada, como se dançasse de impaciência. A costura andava devagar. Ponto. E mais um. E outro. E mais outro. A Singer observava, muda, com o pedal solto e a gaveta fechada.

    — Meu irmãozin vai ficar feliz… — comentou o menino quase num sussurro. — Ele chama o urso de Pimpo.

    — Pimpo? Que nome… — Augusto quase riu pelo nariz, mas se conteve. — Está bem estragado. Não vai ficar bonito.

    — Num tem problema… Ele só quer poder segurar o Pimpo pra dormir — disse o garoto, com uma leveza resignada, como quem sabe o valor das coisas remendadas.

    Augusto assentiu com a cabeça, mas não respondeu. Poder segurar pra dormir. Mordeu a língua. Deu o nó final na barriga do urso e cortou a linha com um canivete que usava para tudo. Em seguida, examinou a perninha solta. Precisaria de mais alguns pontos ali também.

    Nesse momento, sentiu um toque leve em seu ombro.

    O mundo girou num tranco. Augusto se levantou bruscamente, virando-se com o canivete ainda na mão. O gesto veio antes do pensamento. Veio de um lugar onde não se pensa, onde se reage, onde o corpo lembra o que a mente emparedou.

    O menino tinha tomado coragem e entrado dois passos na sala escura, talvez para ver melhor. Ao se deparar com Augusto se erguendo feito bicho despertado, olhos arregalados e uma lâmina pequena na mão, o garoto deu um salto para trás.

    Por um instante, ficaram congelados assim: Augusto com o canivete suspenso, o peito arfando, e o menino do outro lado da faixa de luz, com os olhos muito redondos de susto. Dois pontos negros, os olhos, fitando-o. Um bicho olhando outro bicho. Nenhum dos dois sabendo quem era a presa.

    — Eu… eu só ia… — balbuciou o garoto.

    Augusto sentiu o coração socando as costelas. A adrenalina do susto misturada a outra coisa mais antiga, um medo que não era do menino e não era daquele momento, subia-lhe à garganta. Piscou. Voltou a si. Percebeu a cena: um homem feito com uma lâmina na mão, ameaçando um garoto que só queria ver o urso de perto.

    Abaixou o canivete devagar. As mãos estavam marcadas de tão firmes que seguravam o metal.

    — Não chegue por trás assim! — ele disse duro, mas a frase saiu tremida. — Quase te furei, muleque!

    O menino assentiu rápido com a cabeça, engolindo seco. Augusto viu que ele tinha deixado cair de susto as moedas de antes; três círculos opacos brilhavam perto de seu pé descalço. Então percebeu outra coisa: o garoto mancava. Talvez por isso não tivesse escapado a tempo do reflexo dele. Havia uma casca de machucado mal curado na canela, recente, e Augusto não quis pensar em como aquilo tinha acontecido. Mas pensou.

    — Machucou? — perguntou de supetão, num tom quase áspero, apontando com o queixo para a perna do menino.

    — Num foi nada não, sinhô — respondeu o menino, a voz fraca, coçando a canela ferida com o dedão do outro pé.

    O homem trincou os dentes. Sentiu uma vontade súbita de gritar, xingar, mandar o menino para o inferno por tê-lo assustado assim. Queria despejar nele toda a raiva e toda a dor engasgadas dentro do peito durante anos. Anos. Mais anos do que o menino tinha de vida, provavelmente. E isso era o pior de tudo.

    Seu rosto chegou a se contorcer, as sobrancelhas franzindo sombrias, a boca abrindo para soltar um rugido. O garoto recuou mais um passo, tenso.

    Mas nada saiu.

    A raiva subiu queimando e murchou no ar, igual um balão furado. Augusto sentiu foi um gosto salgado na língua. Largou o canivete em cima da mesa e passou a mão tremendo no rosto inteiro, como se quisesse esfregar fora aquela expressão terrível. Quando tirou a mão, tremia não só nas mãos, mas nas pernas. Cambaleou para a cadeira e sentou, pesado.

    Baixou a cabeça, encarando o ursinho que jazia no seu colo durante toda a confusão. O pobre Pimpo, com metade da barriga costurada e a perna ainda por consertar, olhando-o com seus olhos de botão inexpressivos. Dois pontos. Duas pequenas esferas pretas.

    — Desculpa — murmurou Augusto, sem saber ao certo pra quem.

    O garoto nada disse. Continuava parado a poucos metros, quieto, na luz. Augusto afundou o rosto nas mãos por um segundo ou dois. Precisava recompor-se. Um homenzarrão ameaçando criança, quase tendo um troço no meio da sala. Se a vizinha visse, chamava a polícia. Se a sua mãe visse — mas a sua mãe não via mais nada há tempo.

    Respirou fundo algumas vezes, sentindo o coração desacelerar. Quando conseguiu levantar o rosto de novo, viu que o garoto já estava junto a ele, bem perto, com o braço estendido. Na pequena mão suja, esticada para ele, havia um lenço amarrotado.

    — Pra secar o rosto, sinhô — disse o menino, baixinho.

    Só então Augusto percebeu que chorava. Uma lágrima grossa pendia de seu queixo, outra escorria perto do nariz. Pegou o lenço devagar, encostando o tecido ao rosto, enxugando sem força. O pano tinha cheiro de sol e rua. Cheiro de fora. De coisa viva.

    — Eu me assustei também — disse o menino, tentando um sorriso mínimo. — Achei que o sinhô ia me machucá… Mas tá tudo bem.

    Tá tudo bem. Dito por uma criança com ferida na canela e fome no bolso. Augusto mordeu o lábio e assentiu em silêncio. Não confiava na própria voz agora.

    Devagar, ele voltou ao trabalho. Com os olhos marejados ainda, alinhou a perninha do ursinho e retomou a costura. O menino agachou ali perto, observando quieto, sem mais se aproximar bruscamente.

    Dessa vez, Augusto enfiou a agulha com mais firmeza. Fez ponto após ponto, e não tremeu. O tecido aceitou. A linha segurou. Em poucos minutos, Pimpo tinha novamente uma perna segura no lugar. Não era bonito o remendo, mas era forte. Uma costura boa que aguenta o peso do que segura.

    Ele cortou a linha e entregou o urso ao menino, sem uma palavra. O garoto abraçou o brinquedo remendado com cuidado, como quem segura algo precioso. E era. A fronteira entre o precioso e o inútil é quase sempre decidida por quem segura.

    Augusto esperou o menino virar e sair. Esperou um xingamento, uma ofensa, ou ao menos um olhar de reprovação ao se despedir. Nada. O garoto, com um gesto de inocência inabalável, recolheu suas três moedas do chão, guardou no bolso e mancou até a porta. Antes de sair de vez, virou-se para Augusto e falou, sincero:

    — Obrigado, sinhô. De coração.

    E lá se foi, apertando o ursinho contra o peito ossudo, com uma ligeira dificuldade no caminhar mas sem hesitar. Sem olhar pra trás.


    Augusto ficou vendo ele se afastar pela rua estreita até se tornar um vulto dissolvido na luz branca da tarde. Não conseguiu dizer nada em resposta. A porta continuava aberta; a claridade banhava toda a poeira da sala agora, expondo-a sem dó.

    Ele encarou o retalho de brim que antes tentava costurar para si. Tantas tentativas frustradas para aquele pedaço de pano grosseiro. Puxou o tecido e o atirou no chão com força.

    Um grunhido escapou de sua garganta, um som rouco que reverberou pela casa vazia. Seu rosto queimava.

    Mas ao mesmo tempo, algo no peito. Era uma coisa sem nome que se movia, que se desprendia, como um caco de reboco soltando da parede: devagar, e depois de uma vez. Doendo enquanto saía.

    Augusto se levantou e foi até a porta aberta, pisando firme. Sentiu o calor do sol morder-lhe a pele, os olhos arderam mas ele não desviou. Lá do outro lado da rua, uma vizinha observava com estranheza o homem que não saía de casa havia tempos. Ele a viu. Quase riu. Devia estar mesmo uma figura: camisa aberta, rosto inchado de choro, parado na luz como alguém que saiu do cinema no meio do dia e ainda não se acostumou com o mundo real.

    Voltou para dentro, deixando a porta escancarada dessa vez. O sol entrava como intruso, pintando tudo com um amarelo impiedoso. A máquina de costura brilhava em pontos onde a tinta preta descascada revelava o metal por baixo. Augusto se aproximou dela, devagar, como quem se aproxima de alguém com quem precisa ter uma conversa difícil.

    Abriu de novo a gavetinha.

    O pano de linho ainda cobria a arma parcialmente, mas agora dava pra ver o cano curto, opaco. Augusto sentiu a ponta dos dedos formigarem. A gaveta cheirava a graxa e a tempo parado.

    Por um momento longo, ficou olhando aquele objeto.

    Eram incontáveis as vezes que, na calada da noite, com a cidade dormindo, abrira essa mesma gaveta e ficara só encarando o brilho metálico. Dois pontos: o cano da arma mirando o nada e o buraco do tambor vazio a seu lado. Um par de olhos escuros, como os do urso, como os do menino, como os de tudo que ficava olhando pra ele esperando uma decisão.

    Mas esta noite era diferente. Esta noite era dia. A porta estava aberta. Um garoto tinha entrado na sua sala, tinha levado um susto, tinha oferecido um lenço, e tinha ido embora mancando com um urso de barriga costurada.

    Augusto estendeu a mão devagar e pousou os dedos no cabo do revólver. Estava quente. O sol da porta aberta incidia ali agora, coisa que nunca acontecia.

    Fechou a mão em torno do punho da arma e, num movimento decidido, retirou-a da gaveta. Pesou-a na palma. Os olhos arderam de novo, mas desta vez era uma coisa diferente. Não era vontade de parar. Era vontade de não parar.

    Saiu para a rua com o revólver em punho, sem fechar a porta. Os passos ecoaram nas pedras da calçada irregular, e a vizinha que espiava arregalou os olhos e correu para dentro ao vê-lo passar armado. Augusto ouviu o baque da porta dela e pensou: é, também faria o mesmo. Um homem chorando com uma arma na mão não é uma cena que se assiste. É uma cena da qual se foge.

    Mas ele não estava chorando mais. Estava caminhando. Era diferente.

    A rua tinha cheiro de esgoto e de manga madura, as duas coisas misturadas num perfume que só existe em cidades que não sabem se estão vivendo ou apodrecendo. Augusto passou pela esquina onde o vira-lata líder dormia na sombra e o cachorro abriu um olho só, avaliou-o, e fechou de novo. Aprovado, ou irrelevante.

    Quatro quarteirões até o ferro-velho. Quatro quarteirões que ele não caminhava há meses, talvez mais. As pernas reclamavam, não de dor, mas de espanto. O corpo estranhava o próprio movimento, como uma máquina de costura que volta a funcionar depois de enferrujar: os primeiros pontos saem tortos, mas saem.

    Encontrou o garoto já perto do pátio do ferro-velho, puxando sua carroça meio vazia. Ao perceber Augusto atrás de si, o menino se sobressaltou, quase soltando a carroça.

    Augusto parou a dois passos dele.

    O sol do meio da tarde fazia suor pingar da testa do homem e brilhava nos olhos assustados do garoto.

    Ele ergueu a mão que carregava o revólver.

    O menino empalideceu. Abraçou instintivamente o ursinho contra o peito, como um escudo inútil contra tudo. E ali estavam de novo: dois pontos negros, aqueles olhos, o encarando. Os mesmos de dentro da sala. Os mesmos do ursinho. Os mesmos do cano da arma. Tudo olhando pra ele, tudo esperando.

    Augusto então virou o cabo da arma para frente, estendendo-a na direção do menino como quem oferece um presente que não sabe explicar.

    — Me faz um favor — disse, ofegante, a voz firme apesar do coração disparado. — Leva isso aqui. Vende lá dentro, no ferro-velho. Acho que vai te render um bom troco.

    O garoto demorou uns segundos para reagir. Seus olhos iam da arma para o rosto de Augusto, depois para o ursinho em seus braços, depois de volta para a arma. Como se tentasse montar uma frase a partir de palavras soltas.

    — Vai, pega logo — insistiu Augusto, balançando a arma pelo cano. — Antes que eu me arrependa.

    Com muito cuidado, o menino soltou uma das mãos do urso e aceitou o revólver, segurando-o como quem pega em brasa.

    — Mas… sinhô… — engasgou ele, sem saber o que dizer.

    — Não é brinquedo, é coisa séria. Segura direito. Isso vale mais que garrafa velha. Vai te dar mais que algumas moedas. Vai dar pra uns muitos pães.

    O garoto segurou a arma com as duas mãos agora, entendendo. E Augusto percebeu que ele entendia de um jeito que crianças daquela rua entendem: sem espanto, sem perguntas sobre de onde veio ou por que está sendo dado. Só entendia que era pesado, que valia, e que era dele agora. Os olhos brilharam de um jeito diferente, e ele afirmou com a cabeça.

    — Obrigado, sinhô… Eu prometo que…

    Augusto ergueu a mão espalmada, interrompendo.

    — Xiu. Some daqui. Vai.

    O menino obedeceu. Virou-se e entrou com hesitação pelo portão do ferro-velho, olhando ainda para trás algumas vezes, até sumir lá dentro com a arma bem segura nas mãos e o urso prensado no braço.


    Augusto ficou parado onde estava, sem avançar além. O coração batia selvagem no peito, e ele pôde ouvi-lo nos ouvidos. Lá dentro, os adultos velhos que cuidavam do ferro-velho encaravam perplexos o cenário que o menino acabava de descrever.

    Augusto sentiu vontade de acender um cigarro, mas não tinha nenhum no bolso, porque faz tempo que largou disso. Então ficou sem nada nas mãos. As mãos vazias, sem linha, sem agulha, sem arma, sem faca. Só mãos. Olhou pra elas como se fossem de outra pessoa.

    Levantou os olhos para o céu, que era de um azul impiedoso de verão. A tontura bateu e ele precisou escorar num poste. Ficou assim por um tempo, o concreto quente nas costas, esperando a cabeça parar de girar. Dali, pôde ver o menino sair de uma padaria no final da rua com uma sacola pesada.

    Quando se sentiu capaz de andar, tomou o caminho de volta para casa. Os pés moviam-se leves, embora incertos, como se testassem um chão novo. A mesma calçada de antes, mas diferente. Ou os mesmos pés, mas diferentes. Uma das duas coisas.

    A porta de casa seguia aberta como deixara. Entrou. A poeira no ar agora parecia menos densa. Talvez por causa do sol entrando, talvez porque há pouco uma criança havia respirado ali dentro, movendo o ar estagnado. Talvez as duas coisas. Talvez nenhuma.

    Augusto encarou a máquina de costura mais uma vez. A gaveta jazia aberta, escancarando o vazio onde antes a arma se escondia. Lá dentro só restavam as linhas, agulhas e alfinetes, brilhando ao acaso. Ele pegou o pano de linho e o largou ali mesmo, sem cobrir nada. Não tinha mais o que esconder.

    Em cima da mesa, o ursinho Pimpo não estava mais. Augusto lembrou que o menino o levava nos braços. Por reflexo, olhou ao redor, meio perdido, até avistar outra coisa caída perto da cadeira: o retalho de brim, aquele do seu conserto frustrado. Estava amassado e sujo. Ele o ergueu com os dedos, notando como o tecido era grosseiro e inflexível. Lembrou que era de uma antiga farda… sua, talvez? Não conseguia recordar. Ou conseguia, mas já não importava.

    Com um gesto decidido, jogou o retalho na lata de lixo. O metal fez um som oco quando o pano pesado caiu lá dentro.

    Chega.

    Por um instante, Augusto ficou de pé no meio da sala, sem saber o que fazer. O silêncio parecia diferente. Não mais leve. Diferente. Como uma sala que foi rearranjada de madrugada: os mesmos móveis, mas nenhum no lugar de antes.

    Ele ouviu seu estômago roncar. A fome. Um pão fresco, inteiro, quem sabe um pouco de manteiga. Teve que rir baixo. Seria o primeiro alimento decente que se permitiria em dias. Permitir-se. Que verbo estranho pra quem passou tanto tempo se negando.

    Saiu novamente, trancando a porta dessa vez.

    As chaves tilintaram na mão.

  • A Procura dos Irmãos Através de Si Próprio

    janeiro 13th, 2026

    A noite cai sobre Monte Escuro como um véu úmido, tingindo tudo numa penumbra fria. Você está parado sob a luz trêmula de um lampião de esquina, um sentinela cansado observando o reflexo distorcido da cidade numa poça d’água que repousa na calçada quebrada. O vento de outono atravessa seu casaco como se fossem agulhas, trazendo junto o sal do mar, a ferrugem dos armazéns e o murmúrio de um bairro que resiste no lugar de dormir. Nos becos em volta, sussurros, passos arrastados e risadas roucas se misturam em um estalar distante e fraquinho de garrafas nos bares. Mas por aqui, nesse ponto esquecido entre ruínas, o mundo segura a respiração. A solidão, e nada mais, responde ao seu silêncio.

    Por um instante, o brilho da poça parece formar dois rostos de crianças olhando de volta para você, os rostos do seu irmão e da sua irmã. A visão dura apenas o tempo de um piscar. A superfície se desfaz em ondas pequenas, e leva então embora as feições e deixando só a água suja no lugar. Quase dois anos desde o desaparecimento deles, e mesmo assim você retorna a este ponto da cidade toda noite, como se algo aqui tivesse deixado um vestígio que tenha passado despercebido. Uma pressão familiar cresce no peito, pesada e fria, daquelas que não se sabe como explicar, não tem forma definida, mas você sabe está ali. Há momentos em que você imagina onde poderiam estar, não é porque você realmente acredita ser uma possibilidade concreta, está mais pata um espaço vazio que se move junto com você. O nada age em silêncio, tão paciente, mordendo devagar a parte de dentro do seu pensamento

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