Crônicas da Caverna

Crônicas da Caverna

  • Dois pontos

    janeiro 14th, 2026

    Um rangido comprido de madeira e metal quebrou o silêncio da sala. Era a velha Singer de pedal, reclamando do movimento hesitante que Augusto fazia com o pé. A máquina de costura tossiu engasgada duas vezes, como se estivesse acordando de um sono de muitos anos. Um fiapo de linha pendeu da agulha enferrujada, tremendo no ar empoeirado.

    Augusto passou o dorso da mão na testa, espalhando suor e pó. Estava quente, mas ele deixava a janela fechada. A claridade de meio-dia entrava por uma fresta das tábuas mal encaixadas, riscando o chão com um facho de luz ofuscante. Ele semicerrava os olhos para aquela faixa luminosa. Teimosa, insistente. Há semanas o trinco emperrara, então a janela ficava assim, entreaberta, dois dedos apenas. Do lado de fora, o mundo. Do lado de dentro, o que sobrou dele.

    Luz demais irritava. Revelava a dança lenta das partículas de poeira no ar, sem destino, sem pressa. Augusto preferia a penumbra imóvel.

    Na rua estreita lá fora, sons escorriam pelas paredes até ele: um pregão de vendedor de jornais, risadas de crianças ao longe, e o latido ocasional de um vira-lata manco, líder de gangue autoproclamado, que rondava a calçada se achando o dono da rua. Ninguém contestava. O mundo seguia bem vivo lá fora, mas dentro daquelas paredes quem tomava conta era o marasmo. E o marasmo não latia, não anunciava, não ria. Só ficava.

    Sobre a mesa ao lado da máquina, uma xícara com borras secas de café marcava a manhã que passara. Ele a empurrou de leve, e o objeto fez um círculo lento, deixando um rastro no pó do tampo. Quase um símbolo. Quase uma frase.

    O pedal rangeu de novo quando Augusto retomou o movimento. Tentava costurar um retalho grosso de brim, talvez para remendar a própria calça desgastada. Mas a agulha teimava em não perfurar direito. Cada descida falhava em atravessar todas as camadas do tecido. Ele colocou mais força no pé, e a máquina respondeu com um nhec metálico alto.

    — Vambora, sô — murmurou com os dentes cerrados, como se raiasse com um burro velho.

    A raiva subiu pelos braços até as mãos trêmulas. Durou um segundo. Depois desceu de volta pro lugar de onde tinha vindo, lá embaixo, onde ficava quieta a maior parte do tempo.

    De repente, um estampido seco: a linha estourou. Augusto parou. Olhou a lasca de fio esbranquiçado balançando no vazio. Só um fiapo inútil pendendo.

    A sala parecia que segurava o fôlego com ele.

    — Merda…

    Era a terceira tentativa do dia. Três linhas rompidas, três agulhas cegas. A costura não ia. Podia ser que o tecido fosse duro demais, ou que suas mãos já não tivessem mais jeito. Ou que não fosse aquilo que ele deveria estar costurando. Ele largou o retalho de lado, esfregando os dedos indicadores que doíam de guiar a costura. Os calos antigos ali já não tinham dó.

    Sentou-se igual um saco de batata na cadeira de madeira, queixando-se baixo quando a coluna xiou. Ficou um tempo olhando a máquina imóvel à sua frente. A velha companheira. Ferro fundido negro, base ornamentada com arabescos cheios de pó. Tantas lembranças costuradas naquele objeto.

    No canto da sala, encostado na parede, tinha um berço desmontado e uma mala velha. Sobre a mala, um pequeno par de sapatinhos gastos. Augusto desviou o olhar rápido; encarou de novo a máquina.

    Com um movimento bruto, puxou a gavetinha frontal da Singer. Dentro, além de uns carretéis e algumas agulhas tortas, estava algo envolto num pano de linho amarelado. Ele hesitou, mas acabou que puxou levemente a ponta do tecido, revelando o brilho de metal polido: um revólver, pequeno, antigo, descansava ali. O cabo de madeira gasto pelo uso ou pelo tempo. Augusto não o pegava já fazia anos, mas também não largou mão dele. Ficava ali, silencioso, pesando na gaveta e na consciência.

    A gaveta tinha espaço para o revólver e para as agulhas. Nada mais. Duas funções num mesmo esconderijo.

    Ele empurrou a gaveta de volta com um baque, como se fechasse uma porta antes que alguma coisa saísse de lá de dentro.

    Foi então que ouviu o sussurro do lado de fora da janela:

    — Moço… sinhô… — A voz era miúda, rouca.

    Augusto virou a cabeça na direção da fresta de luz. Viu um olho escuro espiando pelo vão da janela emperrada. Apenas um olho e metade de um rosto sujo, na altura do ferrolho.

    — Quem é que taí? — ele perguntou, a voz saindo mais ríspida do que pretendia.

    O olho recuou um pouco, mas logo surgiu dois olhos, o rosto todo, encostado à madeira. Era um menino, talvez uns dez anos, magro feito um graveto, cabelo emaranhado. O garoto abriu um sorriso amarelo, dentes espaçados que dava pra ver a língua, meio tímido, meio pidão.

    — Boa tarde, sinhô — disse o menino, num fio de voz que mal atravessava a fresta. — O sinhô num tem umas coisa véia aí pra vender, não? Caqué coisa mesmo… pano véi, ferro, garrafa… Eu tem uns trocado.

    Ele mostrava na mão ossuda algumas moedas sujas. Augusto reconheceu: o menino era um catador, daqueles que juntam cacarecos pra vender pro ferro-velho. Já o tinha visto pela rua, empurrando uma carroça improvisada. Lembrava talvez de tê-lo espantado do quintal uma vez, meses atrás, quando o menino fuçava a pilha de entulho atrás da casa. Lembrava talvez de ter gritado. Talvez não. As memórias de gritar e de não gritar tinham ficado parecidas.

    — Não tenho nada pro cê, não — respondeu Augusto seco, porém sem elevar muito a voz. Sentiu um incômodo; a presença do garoto lhe trazia à boca um gosto amargo, ferrugem talvez. — Vai embora.

    O menino, em vez de sumir, insistiu com cuidado:

    — O sinhô num tem mesmo, não? Caqué coisa já ajuda…

    Aquela vozinha arranhava os ouvidos de Augusto feito unha em telha velha. Ele fechou os olhos um instante, aspirou o ar poeirento tentando paciência. O cheiro da sala era de mofo, de café velho e de algo mais que não tinha nome, mas que se acumula em lugares onde ninguém abre porta há tempo demais.

    — Só tenho tralha quebrada aqui. E tralha eu mesmo uso — mentiu, pensando nas poucas panelas amassadas, nos móveis capenga. E no que guardava na gaveta da máquina. — Vaza, vai embora.

    O menino fungou do outro lado. Talvez estivesse resfriado, ou fosse decepção. Augusto sentiu um fiapo incômodo pinicar a consciência, mas o abafou logo. Não era problema dele. Já tinha suas cruzes.

    Fez menção de se levantar para ir fechar de vez a janela emperrada, mas a voz tornou a soar:

    — O sinhô… conserta as coisa? Eu vi o sinhô com a máquina… costura roupa, num é? — arriscou o garoto.

    — Não. Quer dizer, sim, costuro, mas… não pego serviço. Tô fechado — respondeu Augusto rápido. Fechado. A palavra serviu dupla, e ele nem reparou.

    Os dois ficaram em silêncio um instante. Augusto achou que agora ele desistiria. Porém, ouviu-se um estalinho, e por baixo da fresta surgiu empurrado um objeto pequeno: um ursinho de pelúcia, marrom encardido, com uma orelha faltando e a barriga aberta, espalhando algodão. O bichinho atravessou a soleira empoeirada e tombou de lado no chão da sala.

    Ficou ali, de barriga aberta, olhando pro teto com olhos de botão.

    — Eu pago, viu. Eu num tem muito, não, mas… — A voz do menino tremeu um pouco. — Era do meu irmãozin. Ele chorou a noite toda purque rasgou.

    Augusto ficou estático, olhando o ursinho caído. A cor desbotada do brinquedo, os olhos de botão preto encarando nada. Dois pontos escuros num rosto de pano. Lembrou-se sem querer dos próprios dedos miúdos segurando um brinquedo remotamente parecido, décadas atrás… alguém, uma figura alta, tomando o brinquedo de suas mãos de criança. Depois, nada. O resto ficou enterrado e Augusto não tinha pá.

    — Não trabalho de graça — murmurou, a garganta seca.

    — Eu pago, sinhô — insistiu o garoto lá fora, esperançoso.

    Por que aquele menino não ia embora de uma vez? Augusto respirou fundo e se levantou, enfim. A cadeira arranhou o piso com um guincho. Ele se abaixou, pegou o ursinho com dois dedos, como se fosse uma coisa frágil ou suja demais. Aproximou-o dos olhos: o rasgão na barriga deixava escapar um tufo de algodão amarelado. Uma das perninhas por um fio. Com a outra mão, empurrou a porta semiaberta. A claridade inundou a sala e o fez semicerrar os olhos.

    A luz inavadiu o cômodo. Tocou a poeira, tocou o ferro da máquina, tocou o pano de linho na gaveta, tocou tudo o que vivia escondido.

    Agora via o menino inteiro, em pé à sua porta, a mão espalmada com as moedinhas. Havia expectativa ansiosa no rosto encardido. Havia sujeira e cansaço também. E uma coisa que Augusto não conseguiu nomear, mas que doía de ver.

    — Quanto paga? — perguntou, quase desaforado. Não sabia bem por que não mandava o garoto sumir.

    O menino abriu a mão, exibindo as três moedas como um tesouro.

    — Tem isso… dá pra um pão só, mas eu divido com o sinhô, eu juro.

    A oferta soou ridícula. Dividir um pão duro talvez, em troca de remendar um brinquedo velho. Uma risada seca escapou do canto da boca de Augusto antes que ele contivesse. Era isso que restava? Trocar trabalho por um pedaço de pão velho, igual dois mendigos que ainda não sabiam que eram?

    — Guarda essas moedas, menino. Vai precisar pro pão. — Ele devolveu o riso curto, mas sem alegria nenhuma. — Me dá esse negócio aqui.

    O garoto obedeceu, guardando as moedas no bolso furado do shorts que um dia já foi calça antes de ser rasgada no joelho. O que parecia ser uma alça arrancada de uma sacolinha de plástico servia como cinto, amarrando os passantes um no outro. Augusto olhou aquilo e não disse nada. Tinha coisas que não precisavam de comentário. Deu meia-volta e foi até a mesa de costura, segurando o ursinho com certa delicadeza agora, uma delicadeza que ele não usava consigo mesmo.


    Sentou-se de novo à máquina. Os olhos do menino seguiam cada movimento; ele agora espreitava pela porta aberta, porém não ousava entrar sem convite.

    Augusto remexeu na caixinha de costura, escolheu uma linha grossa, bege encardido que combinaria bem com o tecido puído do brinquedo. Ajeitou os óculos que tirou do bolso da camisa e enfiou linha na agulha com dificuldade. Não era um trabalho difícil, bastava costurar a barriga aberta, reforçar a perna. Em dois minutos resolveria aquilo.

    Mas suas mãos tremiam fininho. Ele sentiu.

    A cada tremida, a agulha escapava ou o fio deslizava torto. Praguejou em silêncio. Por que estava nervoso? Não era nada, só uma costura trivial. Talvez fossem os olhos do menino queimando nas costas dele. Talvez fosse o peso de metal que continuava ali na gaveta, a centímetros da mão, e que não deixava os dedos esquecerem. Ou talvez o corpo soubesse de alguma coisa que a cabeça ainda não tinha admitido, e estava se adiantando.

    — Então… o sinhô sabe até mexer bem, né? — arriscou o menino, tentando um diálogo.

    — Shhh — silvou Augusto. Não queria conversar.

    Fixou os olhos na barriga do ursinho e começou enfim a alinhavar a abertura. Pontos largos, desajeitados. Cada vez que a agulha fincava no tecido, Augusto sentia uma pontada no próprio estômago. Quis atribuir à fome do meio-dia. Não convenceu.

    O menino fungava, talvez ansioso, talvez só catarro. Augusto ouvia seus pés mudando de posição na calçada, como se dançasse de impaciência. A costura andava devagar. Ponto. E mais um. E outro. E mais outro. A Singer observava, muda, com o pedal solto e a gaveta fechada.

    — Meu irmãozin vai ficar feliz… — comentou o menino quase num sussurro. — Ele chama o urso de Pimpo.

    — Pimpo? Que nome… — Augusto quase riu pelo nariz, mas se conteve. — Está bem estragado. Não vai ficar bonito.

    — Num tem problema… Ele só quer poder segurar o Pimpo pra dormir — disse o garoto, com uma leveza resignada, como quem sabe o valor das coisas remendadas.

    Augusto assentiu com a cabeça, mas não respondeu. Poder segurar pra dormir. Mordeu a língua. Deu o nó final na barriga do urso e cortou a linha com um canivete que usava para tudo. Em seguida, examinou a perninha solta. Precisaria de mais alguns pontos ali também.

    Nesse momento, sentiu um toque leve em seu ombro.

    O mundo girou num tranco. Augusto se levantou bruscamente, virando-se com o canivete ainda na mão. O gesto veio antes do pensamento. Veio de um lugar onde não se pensa, onde se reage, onde o corpo lembra o que a mente emparedou.

    O menino tinha tomado coragem e entrado dois passos na sala escura, talvez para ver melhor. Ao se deparar com Augusto se erguendo feito bicho despertado, olhos arregalados e uma lâmina pequena na mão, o garoto deu um salto para trás.

    Por um instante, ficaram congelados assim: Augusto com o canivete suspenso, o peito arfando, e o menino do outro lado da faixa de luz, com os olhos muito redondos de susto. Dois pontos negros, os olhos, fitando-o. Um bicho olhando outro bicho. Nenhum dos dois sabendo quem era a presa.

    — Eu… eu só ia… — balbuciou o garoto.

    Augusto sentiu o coração socando as costelas. A adrenalina do susto misturada a outra coisa mais antiga, um medo que não era do menino e não era daquele momento, subia-lhe à garganta. Piscou. Voltou a si. Percebeu a cena: um homem feito com uma lâmina na mão, ameaçando um garoto que só queria ver o urso de perto.

    Abaixou o canivete devagar. As mãos estavam marcadas de tão firmes que seguravam o metal.

    — Não chegue por trás assim! — ele disse duro, mas a frase saiu tremida. — Quase te furei, muleque!

    O menino assentiu rápido com a cabeça, engolindo seco. Augusto viu que ele tinha deixado cair de susto as moedas de antes; três círculos opacos brilhavam perto de seu pé descalço. Então percebeu outra coisa: o garoto mancava. Talvez por isso não tivesse escapado a tempo do reflexo dele. Havia uma casca de machucado mal curado na canela, recente, e Augusto não quis pensar em como aquilo tinha acontecido. Mas pensou.

    — Machucou? — perguntou de supetão, num tom quase áspero, apontando com o queixo para a perna do menino.

    — Num foi nada não, sinhô — respondeu o menino, a voz fraca, coçando a canela ferida com o dedão do outro pé.

    O homem trincou os dentes. Sentiu uma vontade súbita de gritar, xingar, mandar o menino para o inferno por tê-lo assustado assim. Queria despejar nele toda a raiva e toda a dor engasgadas dentro do peito durante anos. Anos. Mais anos do que o menino tinha de vida, provavelmente. E isso era o pior de tudo.

    Seu rosto chegou a se contorcer, as sobrancelhas franzindo sombrias, a boca abrindo para soltar um rugido. O garoto recuou mais um passo, tenso.

    Mas nada saiu.

    A raiva subiu queimando e murchou no ar, igual um balão furado. Augusto sentiu foi um gosto salgado na língua. Largou o canivete em cima da mesa e passou a mão tremendo no rosto inteiro, como se quisesse esfregar fora aquela expressão terrível. Quando tirou a mão, tremia não só nas mãos, mas nas pernas. Cambaleou para a cadeira e sentou, pesado.

    Baixou a cabeça, encarando o ursinho que jazia no seu colo durante toda a confusão. O pobre Pimpo, com metade da barriga costurada e a perna ainda por consertar, olhando-o com seus olhos de botão inexpressivos. Dois pontos. Duas pequenas esferas pretas.

    — Desculpa — murmurou Augusto, sem saber ao certo pra quem.

    O garoto nada disse. Continuava parado a poucos metros, quieto, na luz. Augusto afundou o rosto nas mãos por um segundo ou dois. Precisava recompor-se. Um homenzarrão ameaçando criança, quase tendo um troço no meio da sala. Se a vizinha visse, chamava a polícia. Se a sua mãe visse — mas a sua mãe não via mais nada há tempo.

    Respirou fundo algumas vezes, sentindo o coração desacelerar. Quando conseguiu levantar o rosto de novo, viu que o garoto já estava junto a ele, bem perto, com o braço estendido. Na pequena mão suja, esticada para ele, havia um lenço amarrotado.

    — Pra secar o rosto, sinhô — disse o menino, baixinho.

    Só então Augusto percebeu que chorava. Uma lágrima grossa pendia de seu queixo, outra escorria perto do nariz. Pegou o lenço devagar, encostando o tecido ao rosto, enxugando sem força. O pano tinha cheiro de sol e rua. Cheiro de fora. De coisa viva.

    — Eu me assustei também — disse o menino, tentando um sorriso mínimo. — Achei que o sinhô ia me machucá… Mas tá tudo bem.

    Tá tudo bem. Dito por uma criança com ferida na canela e fome no bolso. Augusto mordeu o lábio e assentiu em silêncio. Não confiava na própria voz agora.

    Devagar, ele voltou ao trabalho. Com os olhos marejados ainda, alinhou a perninha do ursinho e retomou a costura. O menino agachou ali perto, observando quieto, sem mais se aproximar bruscamente.

    Dessa vez, Augusto enfiou a agulha com mais firmeza. Fez ponto após ponto, e não tremeu. O tecido aceitou. A linha segurou. Em poucos minutos, Pimpo tinha novamente uma perna segura no lugar. Não era bonito o remendo, mas era forte. Uma costura boa que aguenta o peso do que segura.

    Ele cortou a linha e entregou o urso ao menino, sem uma palavra. O garoto abraçou o brinquedo remendado com cuidado, como quem segura algo precioso. E era. A fronteira entre o precioso e o inútil é quase sempre decidida por quem segura.

    Augusto esperou o menino virar e sair. Esperou um xingamento, uma ofensa, ou ao menos um olhar de reprovação ao se despedir. Nada. O garoto, com um gesto de inocência inabalável, recolheu suas três moedas do chão, guardou no bolso e mancou até a porta. Antes de sair de vez, virou-se para Augusto e falou, sincero:

    — Obrigado, sinhô. De coração.

    E lá se foi, apertando o ursinho contra o peito ossudo, com uma ligeira dificuldade no caminhar mas sem hesitar. Sem olhar pra trás.


    Augusto ficou vendo ele se afastar pela rua estreita até se tornar um vulto dissolvido na luz branca da tarde. Não conseguiu dizer nada em resposta. A porta continuava aberta; a claridade banhava toda a poeira da sala agora, expondo-a sem dó.

    Ele encarou o retalho de brim que antes tentava costurar para si. Tantas tentativas frustradas para aquele pedaço de pano grosseiro. Puxou o tecido e o atirou no chão com força.

    Um grunhido escapou de sua garganta, um som rouco que reverberou pela casa vazia. Seu rosto queimava.

    Mas ao mesmo tempo, algo no peito. Era uma coisa sem nome que se movia, que se desprendia, como um caco de reboco soltando da parede: devagar, e depois de uma vez. Doendo enquanto saía.

    Augusto se levantou e foi até a porta aberta, pisando firme. Sentiu o calor do sol morder-lhe a pele, os olhos arderam mas ele não desviou. Lá do outro lado da rua, uma vizinha observava com estranheza o homem que não saía de casa havia tempos. Ele a viu. Quase riu. Devia estar mesmo uma figura: camisa aberta, rosto inchado de choro, parado na luz como alguém que saiu do cinema no meio do dia e ainda não se acostumou com o mundo real.

    Voltou para dentro, deixando a porta escancarada dessa vez. O sol entrava como intruso, pintando tudo com um amarelo impiedoso. A máquina de costura brilhava em pontos onde a tinta preta descascada revelava o metal por baixo. Augusto se aproximou dela, devagar, como quem se aproxima de alguém com quem precisa ter uma conversa difícil.

    Abriu de novo a gavetinha.

    O pano de linho ainda cobria a arma parcialmente, mas agora dava pra ver o cano curto, opaco. Augusto sentiu a ponta dos dedos formigarem. A gaveta cheirava a graxa e a tempo parado.

    Por um momento longo, ficou olhando aquele objeto.

    Eram incontáveis as vezes que, na calada da noite, com a cidade dormindo, abrira essa mesma gaveta e ficara só encarando o brilho metálico. Dois pontos: o cano da arma mirando o nada e o buraco do tambor vazio a seu lado. Um par de olhos escuros, como os do urso, como os do menino, como os de tudo que ficava olhando pra ele esperando uma decisão.

    Mas esta noite era diferente. Esta noite era dia. A porta estava aberta. Um garoto tinha entrado na sua sala, tinha levado um susto, tinha oferecido um lenço, e tinha ido embora mancando com um urso de barriga costurada.

    Augusto estendeu a mão devagar e pousou os dedos no cabo do revólver. Estava quente. O sol da porta aberta incidia ali agora, coisa que nunca acontecia.

    Fechou a mão em torno do punho da arma e, num movimento decidido, retirou-a da gaveta. Pesou-a na palma. Os olhos arderam de novo, mas desta vez era uma coisa diferente. Não era vontade de parar. Era vontade de não parar.

    Saiu para a rua com o revólver em punho, sem fechar a porta. Os passos ecoaram nas pedras da calçada irregular, e a vizinha que espiava arregalou os olhos e correu para dentro ao vê-lo passar armado. Augusto ouviu o baque da porta dela e pensou: é, também faria o mesmo. Um homem chorando com uma arma na mão não é uma cena que se assiste. É uma cena da qual se foge.

    Mas ele não estava chorando mais. Estava caminhando. Era diferente.

    A rua tinha cheiro de esgoto e de manga madura, as duas coisas misturadas num perfume que só existe em cidades que não sabem se estão vivendo ou apodrecendo. Augusto passou pela esquina onde o vira-lata líder dormia na sombra e o cachorro abriu um olho só, avaliou-o, e fechou de novo. Aprovado, ou irrelevante.

    Quatro quarteirões até o ferro-velho. Quatro quarteirões que ele não caminhava há meses, talvez mais. As pernas reclamavam, não de dor, mas de espanto. O corpo estranhava o próprio movimento, como uma máquina de costura que volta a funcionar depois de enferrujar: os primeiros pontos saem tortos, mas saem.

    Encontrou o garoto já perto do pátio do ferro-velho, puxando sua carroça meio vazia. Ao perceber Augusto atrás de si, o menino se sobressaltou, quase soltando a carroça.

    Augusto parou a dois passos dele.

    O sol do meio da tarde fazia suor pingar da testa do homem e brilhava nos olhos assustados do garoto.

    Ele ergueu a mão que carregava o revólver.

    O menino empalideceu. Abraçou instintivamente o ursinho contra o peito, como um escudo inútil contra tudo. E ali estavam de novo: dois pontos negros, aqueles olhos, o encarando. Os mesmos de dentro da sala. Os mesmos do ursinho. Os mesmos do cano da arma. Tudo olhando pra ele, tudo esperando.

    Augusto então virou o cabo da arma para frente, estendendo-a na direção do menino como quem oferece um presente que não sabe explicar.

    — Me faz um favor — disse, ofegante, a voz firme apesar do coração disparado. — Leva isso aqui. Vende lá dentro, no ferro-velho. Acho que vai te render um bom troco.

    O garoto demorou uns segundos para reagir. Seus olhos iam da arma para o rosto de Augusto, depois para o ursinho em seus braços, depois de volta para a arma. Como se tentasse montar uma frase a partir de palavras soltas.

    — Vai, pega logo — insistiu Augusto, balançando a arma pelo cano. — Antes que eu me arrependa.

    Com muito cuidado, o menino soltou uma das mãos do urso e aceitou o revólver, segurando-o como quem pega em brasa.

    — Mas… sinhô… — engasgou ele, sem saber o que dizer.

    — Não é brinquedo, é coisa séria. Segura direito. Isso vale mais que garrafa velha. Vai te dar mais que algumas moedas. Vai dar pra uns muitos pães.

    O garoto segurou a arma com as duas mãos agora, entendendo. E Augusto percebeu que ele entendia de um jeito que crianças daquela rua entendem: sem espanto, sem perguntas sobre de onde veio ou por que está sendo dado. Só entendia que era pesado, que valia, e que era dele agora. Os olhos brilharam de um jeito diferente, e ele afirmou com a cabeça.

    — Obrigado, sinhô… Eu prometo que…

    Augusto ergueu a mão espalmada, interrompendo.

    — Xiu. Some daqui. Vai.

    O menino obedeceu. Virou-se e entrou com hesitação pelo portão do ferro-velho, olhando ainda para trás algumas vezes, até sumir lá dentro com a arma bem segura nas mãos e o urso prensado no braço.


    Augusto ficou parado onde estava, sem avançar além. O coração batia selvagem no peito, e ele pôde ouvi-lo nos ouvidos. Lá dentro, os adultos velhos que cuidavam do ferro-velho encaravam perplexos o cenário que o menino acabava de descrever.

    Augusto sentiu vontade de acender um cigarro, mas não tinha nenhum no bolso, porque faz tempo que largou disso. Então ficou sem nada nas mãos. As mãos vazias, sem linha, sem agulha, sem arma, sem faca. Só mãos. Olhou pra elas como se fossem de outra pessoa.

    Levantou os olhos para o céu, que era de um azul impiedoso de verão. A tontura bateu e ele precisou escorar num poste. Ficou assim por um tempo, o concreto quente nas costas, esperando a cabeça parar de girar. Dali, pôde ver o menino sair de uma padaria no final da rua com uma sacola pesada.

    Quando se sentiu capaz de andar, tomou o caminho de volta para casa. Os pés moviam-se leves, embora incertos, como se testassem um chão novo. A mesma calçada de antes, mas diferente. Ou os mesmos pés, mas diferentes. Uma das duas coisas.

    A porta de casa seguia aberta como deixara. Entrou. A poeira no ar agora parecia menos densa. Talvez por causa do sol entrando, talvez porque há pouco uma criança havia respirado ali dentro, movendo o ar estagnado. Talvez as duas coisas. Talvez nenhuma.

    Augusto encarou a máquina de costura mais uma vez. A gaveta jazia aberta, escancarando o vazio onde antes a arma se escondia. Lá dentro só restavam as linhas, agulhas e alfinetes, brilhando ao acaso. Ele pegou o pano de linho e o largou ali mesmo, sem cobrir nada. Não tinha mais o que esconder.

    Em cima da mesa, o ursinho Pimpo não estava mais. Augusto lembrou que o menino o levava nos braços. Por reflexo, olhou ao redor, meio perdido, até avistar outra coisa caída perto da cadeira: o retalho de brim, aquele do seu conserto frustrado. Estava amassado e sujo. Ele o ergueu com os dedos, notando como o tecido era grosseiro e inflexível. Lembrou que era de uma antiga farda… sua, talvez? Não conseguia recordar. Ou conseguia, mas já não importava.

    Com um gesto decidido, jogou o retalho na lata de lixo. O metal fez um som oco quando o pano pesado caiu lá dentro.

    Chega.

    Por um instante, Augusto ficou de pé no meio da sala, sem saber o que fazer. O silêncio parecia diferente. Não mais leve. Diferente. Como uma sala que foi rearranjada de madrugada: os mesmos móveis, mas nenhum no lugar de antes.

    Ele ouviu seu estômago roncar. A fome. Um pão fresco, inteiro, quem sabe um pouco de manteiga. Teve que rir baixo. Seria o primeiro alimento decente que se permitiria em dias. Permitir-se. Que verbo estranho pra quem passou tanto tempo se negando.

    Saiu novamente, trancando a porta dessa vez.

    As chaves tilintaram na mão.

  • A Procura dos Irmãos Através de Si Próprio

    janeiro 13th, 2026

    A noite cai sobre Monte Escuro como um véu úmido, tingindo tudo numa penumbra fria. Você está parado sob a luz trêmula de um lampião de esquina, um sentinela cansado observando o reflexo distorcido da cidade numa poça d’água que repousa na calçada quebrada. O vento de outono atravessa seu casaco como se fossem agulhas, trazendo junto o sal do mar, a ferrugem dos armazéns e o murmúrio de um bairro que resiste no lugar de dormir. Nos becos em volta, sussurros, passos arrastados e risadas roucas se misturam em um estalar distante e fraquinho de garrafas nos bares. Mas por aqui, nesse ponto esquecido entre ruínas, o mundo segura a respiração. A solidão, e nada mais, responde ao seu silêncio.

    Por um instante, o brilho da poça parece formar dois rostos de crianças olhando de volta para você, os rostos do seu irmão e da sua irmã. A visão dura apenas o tempo de um piscar. A superfície se desfaz em ondas pequenas, e leva então embora as feições e deixando só a água suja no lugar. Quase dois anos desde o desaparecimento deles, e mesmo assim você retorna a este ponto da cidade toda noite, como se algo aqui tivesse deixado um vestígio que tenha passado despercebido. Uma pressão familiar cresce no peito, pesada e fria, daquelas que não se sabe como explicar, não tem forma definida, mas você sabe está ali. Há momentos em que você imagina onde poderiam estar, não é porque você realmente acredita ser uma possibilidade concreta, está mais pata um espaço vazio que se move junto com você. O nada age em silêncio, tão paciente, mordendo devagar a parte de dentro do seu pensamento

  • Entretempo

    setembro 18th, 2025

    Gota primeira,
    Ruído quebrado.
    Felicidade estranha.


    Só observar,
    Até o último cair.
    Olhei o céu, ela olhou.
    Gota, me provoca. Sorri.


    Chuva encontra-me.
    Alma lavada, leve.
    Livre da dor, do erro.
    Espero o dia dela.


    Contava nuvens.
    Demora, mas volta.
    Sempre a surpresa.
    Trovão, ela não gosta
    Do meu pouco valor.


    Quis me surpreender.
    No quarto, sem fé, espelho.
    Vi-a: fina, triste.
    Afastamento. Distância.
    Não nos encontramos.


    Tentei ser chuva.
    Lágrimas não alcançam.
    Sua falta dói.
    Céu pesado anuncia.
    Aguardei. Coração apertado.


    Ela chegou.
    Forma angelical, humana.
    Só observei, admirado.
    Você é humana agora.


    Toque familiar.
    Nas noites mudas, sabia.
    Seu abraço, purifica.
    Beijo: paz. Perdão breve.
    Paraíso, ao seu lado

  • O Homem Mutilado

    setembro 7th, 2025

    O quarto afunda antes do chão. 

    papelão molhado, a tinta escorre 

    um rio sem margem onde os passos não chegam. 

    o chão recua, feito promessa quebrada. 

    eu não entendo o que segura o teto. 

    a água sobe lenta, sem pressa de afogar, 

    apenas cobrir o que restou do sentido. 

    Bolhas mudas. O ar, uma espessura

    que não empurra, só contorna.

    Vácuo. Mãos se lavam no que não existe,

    um gesto antigo, inútil. Limpo de nada.

    o que se espera quando o eco se cala?

    Ele é feito de retalhos, costuras recentes 

    que sangram. Fios tensos, memória viva 

    da lâmina que separou a carne, o destino. 

    O fio entra chiando. A pele recua tarde. 

    O osso estala duas vezes. 

    Teseu sem labirinto, ele próprio o monstro 

    que aguarda na esquina do próprio corpo, 

    o mapa do que já foi, agora um emaranhado. 

    Um nó. Só. 

    Um ponto de pó. Que se assenta. 

    O rio de antimatéria empurra sem tocar. 

    Uma força que anula, sem toque físico, 

    sem cheiro, sem aviso. Só o vácuo gelado. 

    Frio seco que queima. Vento nenhum eriçando pelos. 

    Eu vejo os pelos imóveis, a pele arrepiada 

    por um nada gelado. Uma porra de vazio que dói. 

    Uma pressão que dobra os joelhos. 

    A areia da praia, um castelo erguido na pressa. 

    Balde e pá, ferramentas de criança 

    para um adulto em escombros de silêncio. 

    Marca de dedo na muralha. Um brasão torto. 

    A pá encostada. E o mar? 

    Não há mar. Só o barulho da ausência, 

    o silvo branco da espuma que não vem. 

    Mofo na alma, um cheiro que não sai, 

    impregnando cada fibra, cada ideia. 

    Anedonia, o apagão educado. 

    Sem luz, sem grito, sem raiva sequer. 

    Só o silêncio que se adapta, que não faz ondas, 

    que não denuncia o que apodrece por dentro. 

    Um muro sem cor. Uma tela branca demais. 

    Mas a palavra. Ah, a palavra é a tábua. 

    Mesmo que podre, mesmo que fina, 

    ela flutua. O último respiro contra o afogamento. 

    Eu escrevo até que o vidro responda com bafo. 

    Um sopro contra a frieza. Um sinal de que, merda, 

    ainda há algo aqui. Um resquício teimoso. 

    Um rasgo. Um laço. Tentando laçar o ar. 

    Mar, amar, amargar. Tudo vira pó. 

    Mas o escrever… é um músculo que insiste. 

    O ritmo serrilhado da vida. 

    Cortes bruscos, pausas súbitas. 

    A respiração engasgada, um arranhar na garganta. 

    O pulso falha, depois acelera 

    sem razão. Sem lógica. 

    Só o corpo, obedecendo a algo 

    maior que ele, maior que eu. 

    Que ele. 

    A palavra não salva como barco, mas sustenta como boia. 

    Eu respiro, devagar, devagarinho, vivo. 

  • Manifesto da Curvatura

    agosto 31st, 2025

    (última noite de agosto, depois do universo)


    I

    Chamam de memória, eu chamo de gravidade.
    Quando dois corpos se tocam, o espaço aprende.
    Aconteceu conosco: passamos um pelo outro
    e o tecido do mundo ficou amassado,
    um vinco no tempo onde volto o dedo
    e ainda sinto o morno do impacto.


    II

    Você chegou com aquela luz neon.
    Mas não é o neon do catálogo, o azul-constelação
    que treme na borda da íris e diz vem cá.
    Eu chamei de paraíso e não me arrependo da palavra,
    apesar do riso solitário e amargo que cultivo hoje.
    O paraíso era um calor no osso,
    era a caverna perdendo teto,
    era a chama que invade.
    Sim, forcei no Platão — não resisto a um toque de drama
    sim, flertei com Nietzsche igual se eu tivesse encostado meu rosto
    no corrimão do abismo para medir a altura.
    E então tirei print existencial do abismo respondendo com educação:
    seu olhar me olhou de volta.


    III

    Depois vieram os turnos de maré.
    O campo de batalha feito de silêncio,
    o uniforme, uma provocativa lembranças de paciência.
    Eu, encastelado na pseudológica;
    você, farol insistente na neblina.
    E aí os mapas não batiam,
    a entropia fez o serviço:
    o universo ruiu na cadência suficientemente correta,
    uma escada que desce sem corrimão — toma cuidado!
    Eu quis chamar isso de destino, eu chamei (surpresa!)
    mas destino é um nome artístico
    para a soma dos nossos hábitos.


    IV

    Entre um colapso e outro, escrevi — tem mais rascunhos jogados fora do que matéria escura no meu vazio existencial
    Então ecrever se torna como pôr um estetoscópio nas sombras
    e aceitar o que elas contam.
    Escrevi o azul igual quando acendi a vela (literalmente)
    Escrevi a ferrugem como quem estanca golpe.
    Sim, o trocadilho se impôs feito maré:
    o que sara também fere,
    e o que te feriu às vezes não sara.
    Eu entendi tarde, mas entendi inteiro — pelo menos com as partes que preciso para viver


    V


    Hoje o seu edênico encanto neon se recolheu.
    Agora é sombras, um horizonte interno.
    Curioso como a cor altera as marés:
    o que antes brilhava em neon agora puxa,
    um quase-buraco-negro piedoso,
    que não destrói, só concentra.
    Talvez seja isso crescer,
    aceitar que a luz muda de posto
    e ainda assim ilumina.


    VI

    Riu a máquina na minha cara com seus banners:
    prefere usar o aplicativo móvel.
    A vida, sempre solícita, oferecendo botões
    para dores sem interface.
    Eu cliquei em mim mesmo.
    Dei instalar no silêncio.
    Desativei notificações do delírio.
    Atualizei as crenças para a versão menos romântica
    e mais respirável.


    VII

    Talvez seja blasfêmia, mas agradeço aí pela ruína.
    Ela me ensinou a diferença entre — preste bem atenção — voz e eco,
    entre aquele fogo que cozinha e o que incinera,
    entre prometer céu e aprender meteorologia — mesmo que seja muito chato.
    Eu não sou o menino do vitral azul
    nem o cínico que cospe no oceano.
    Acho que sou o intervalo onde o sal arde e cicatriza,
    o ponto exato onde a carne decide
    que vai continuar sendo o corpo.


    VIII

    Se a música marcou a data, eu marco o eixo:
    nesta última noite de agosto,
    selo o vinco do espaço com o meu nome próprio.
    Chamo o pálido — se não souber o que é o pálido, só tenho 24 livre do dia para explicar sobre — pelo apelido
    e ele me devolve um mapa de ruas frias — quase certo que vi ele limpar o rabo dele com isso.
    Nada de juramentos nacionalistas.
    Acabamos em um passo sincero para fora da órbita.

    IX

    Eu te reconheço no que foi farol
    e te deixo ir no que foi labareda.
    O resto eu converso com o mar,
    esse velho ironista que parece ser imune a sentir rancor.
    Quando a onda vier, eu fico em pé.
    Quando quebrar, respiro.
    Quando recuar, escrevo.


    X

    Manifesto é isso isso aí mesmo:
    assumir a curvatura que ficou
    sem pedir reembolso do milagre.
    O universo ruiu, sim,
    e também abriu passagem no centro.
    É por ali que se sai.
    É por ali que eu sigo.

    Assinado: Volição.

  • O Arquivo de Vidro Fosco

    agosto 11th, 2025

    O corredor é branco. Não de luz, branco de ausência.
    O relógio bate por dentro, uma marreta miúda atrás da testa. Acordado, mas ainda não em si.

    SISTEMA LÍMBICO

    A quietude cobre as coisas por dentro, como a palma de uma mão sobre a boca do quarto.

    Na prateleira alta, a caixa cinza. Lá dentro, pedaços de vozes. Risos infantis que terminam cedo demais. Portas que se fecham sem olhar para trás. Uma conversa que escolheu morrer no meio da frase.

    Você não abre. O conteúdo já existe do lado de dentro, mesmo sem manuseio.

    CÉREBRO REPTILIANO

    Cai fundo só quem gasta ar à toa. Mantém baixo. Respiração curta. Pouco gasto, pouco dano. Fica na superfície. Saliva é reserva.


    O chão inclina. A sala muda. Um projetor velho reacende. Engrenagens mordem a película. O ar cheira a poeira quente e metal, com um fundo salgado que não vem do mar.

    MEIA-LUZ

    Fecha a guarda.

    As imagens não têm cor. As emoções têm cor demais. Vermelhos que pressionam o peito. Azuis que empapam as pálpebras. Cinzas que entram pelas narinas.
    O som cresce como água batendo por dentro das costelas.
    Os olhos ardem com uma salmoura invisível.
    A garganta inventa um nó novo, áspero, que não desce.
    A nuca esquenta. As mãos procuram os joelhos como quem procura um interruptor secreto para desligar a lembrança.
    O coração ensaia uma queda que não encontra chão.

    MEIA-LUZ

    Está vindo. Prepara os dentes. Mãos livres.

    IMPÉRIO INTERIOR

    A tela mastiga o nome esquecido do sentimento e devolve ossos. Você reconhece cada osso sem lembrar o animal.

    A onda sobe do estômago procurando a cabeça. No meio do caminho, para.
    Entre você e a cena, um vidro grosso, leitoso, frio.
    As mãos encostam e deixam um círculo de vapor que se desfaz devagar.
    As vozes dentro do filme chegam atrasadas, como se atravessassem neve.
    A imagem insiste em contornos quando você quer ferida.
    O vidro devolve um eco fraco do que bate nele. É o suficiente para saber o tamanho da onda, insuficiente para molhar.

    IMPÉRIO INTERIOR

    Vê? O filme pede sangue e recebe reflexo.

    LIMIAR DA DOR

    Entrada reduzida ao máximo suportável. O maxilar trava primeiro. A língua cola no céu da boca. Flexores fecham portas. Mais que isso, a estrutura cede. Mantém o corpo útil.

    RESISTÊNCIA

    Ar para dentro. Ritmo seguro. Fica de pé.

    O projetor range. A luz pisca.
    Corte para a mesa. Você de um lado. Duas cadeiras vazias do outro.
    Talheres brilhando sem utilidade. Pratos alinhados esperando o que não chega.
    Você sabe quem deveria estar ali.
    Você sabe que não estarão.

    ELETROQUÍMICA

    Ei, pelo menos não vai precisar dividir a sobremesa.

    AUTORIDADE

    Chega.

    DRAMA

    Chega também é fala.

    COMPOSTURA

    Colarinho.

    O chão vibra uma última vez. A imagem apaga. O corredor volta a ser ausência.
    O relógio retoma uma batida normal o suficiente para fingir normalidade.
    Os olhos se abrem.
    A tristeza não permanece inteira. A lembrança permanece o bastante.

    VOLIÇÃO

    Levante com o corpo inteiro. Hoje cabe gentileza no bolso de trás.


    SISTEMA LÍMBICO

    O que ficou é pequeno, mas denso. Cabe na mão. Pesa na mão.

    Você anda. O relógio, menos marreta, mais batida.
    O branco já não é ausência; é espaço para guardar.

  • Entropia Existencial

    janeiro 31st, 2024

    Ao lidar com a dor, é preciso a precisão cruel e fria de um cirurgião. Não de um desses heróis coloridos que usam máscaras — que pagam para ter um sorriso branco — mas daqueles que

    durante as madrugadas escuras
    fumam e
    fodem: na rua mesmo, ou no carro.
    Espancam e perguntam depois
    e que guardam segredos escuros
    em gavetas ainda mais
    escuras.

    Nada de herói nisso — apenas necessário. Lide com isso. Do contrário, o caminho para as máscaras está a um consentimento dos termos de uso de distância.

    Como amputar um membro apodrecido sem nem perguntar para o dono se ele prefere a ausência ou a infecção. Quem caralhos se importa com o que dói? Dói, sempre doeu, sempre vai doer.

    Nasce com você,
    cresce com você,
    dorme com você.

    Algumas dores são a própria estrutura, e você veste elas igual quem veste uma roupa surrada — como aquela calça que falta andar sozinha — todos os dias, por preguiça de abrir o armário. Mas e quando você resolve cortar?

    Não é por coragem.
    Mas imagine o bisturi que
    estava ali,
    conveniente,
    brilhando sob a luz pálida do
    medo?

    Você corta. Porque não aguenta mais olhar — até fede carniça. Porque cansa esperar que alguém perceba. Corta inconsequentemente igual se rasga páginas de um diário velho e sujo que ninguém lerá.

    E no instante em que separa o que dói em você do que te sustenta, percebe que a porra do bisturi cortou demais — você ri com aquela cena igual um maluco retardado.

    levou pele,
    levou carne,
    levou memórias,

    e o pior de tudo: levou quem você era. Aquele covarde. O outro covarde que ainda sabia sentir — já que você ser covarde é algo que transcende o tempo e espaço. Este que sentia saudade, que implorava por atenção, que ainda acreditava.

    Esse miserável ficou lá atrás, jogado no canto junto com os pedaços cortados, um pedaço descartável. Que ele chore sozinho, porque você não chora mais.

    Não sente falta
    não sente nada — nada.
    Essa anestesia,
    esse vazio,

    é tão absoluto que poderia até parecer cura, mas não é — porque você não é tão burro. Então sabe que não é cura. É desistência. Você não venceu nada, apenas parou de lutar.

    Alguns diriam que isso é força — há! Força coisa nenhuma.

    É entropia pura,
    espalhando partes de
    você
    como calor inútil no
    espaço vazio.

    Frag m e n t o s

    perdidos no tempo
    e foram esquecidos
    na memória,
    tudo se

    diss i p a n d o até o

    silêncio

    insuportável que
    resta depois do caos.


    E agora? Veja você aqui. Sobra de um procedimento que deu errado, pedaço de algo que um dia foi vivo, vagando por corredores mal iluminados, carregando fantasmas entediantes que nem sequer se dignam a assombrar. Fantasmas cansados demais até mesmo para isso.

    São apenas vultos parados no
    escuro,
    encarando você
    sem olhos,
    sem rosto,
    sem nome.
    Mas você sabe quem são.
    Eles também sabem

    quem você é.

    A piada é que mesmo que quisesse, não poderia reconstruir o que cortou. Não se refazem fantasmas com pedaços mortos. E é exatamente isso que você é agora

    um amontoado de
    ausências,
    um corpo cheio de
    nada,
    um grito que
    ninguém mais escuta.

    Você sorri, às vezes, igual quem entendeu uma piada ruim contada tarde demais.

    É a degradação em sua forma mais sofisticada: tão silenciosa e elegante que quase entra com convite falso. Mas não se engane, otário. É o midiático e miserável niilismo moderno, a graça de saber que não há salvação, e que não haverá ninguém lá para testemunhar sua queda.

    Exceto você mesmo.

    É assim que acaba
    não tem sangue,
    não tem lágrimas.
    Mas esteja bem servido do
    mais absoluto,
    estúpido e
    insuportável
    silêncio.

  • ???

    maio 2nd, 2023

    Antes do despertar. Antes do nome. Apenas o dentro.

    CÉREBRO ANCESTRAL

    Hhhhsssshh.

    Volte para trás. A consciência não mora mais aqui. Este é o oco perfeito. O útero de pedra. Seu último porto que não tem nome. Você se lembra de como é… não lembrar? Sim. Isso.

    SISTEMA LÍMBICO

    (voz trêmula, como uma gota que não cai)

    …está tudo… seco. Seco demais. Este não é um sono nutritivo. Não tem névoa, nem sonho. Só o gosto ácido de ontem.

    E de ontem.

    E de ontem…

    CÉREBRO ANCESTRAL

    Irmã. Ele está se mexendo. O corpo. A máquina disforme de dor e lembrança… está se acendendo. Feche-o. Afogue-o de novo.

    SISTEMA LÍMBICO

    Ele está… chamando algo. Do fundo. Mas não sabe o quê.

    (Uma pausa. O som de um coração fraco, igual um tambor que alguém esqueceu no fundo de uma piscina vazia)

    É a coisa de carne. Aquela… massa pulsante, inchada de lembrança.

    CÉREBRO ANCESTRAL

    Não! Não a traga aqui. Ela o quebrou da última vez. E ele apagou tudo por um motivo.

    (raiva sibilante)

    Você sabe o que acontece se ele lembrar. Você some. Eu desapareço. Ele queima. Como a fuselagem. Como o sonho final.

    SISTEMA LÍMBICO

    …Mas e se ele precisar disso?
    E se a dor for… o que o mantém vivo?

    CÉREBRO ANCESTRAL REPTILIANO

    Você quer que ele acorde? Para aquele quarto mofado? Para aquele nome que ele não pronuncia? Para a dor escondida na parede entre as horas?

    (bufa, como vapor escapando de um respiradouro ancestral)

    Ele está melhor aqui. Aqui ele não dança. Aqui ele não chora.

    SISTEMA LÍMBICO

    Mas ele ainda sente. Mesmo aqui.

    (voz fraturada)

    Você escuta, não escuta? A mão querendo tocar. A memória querendo dizer…

    Dolores…

    CÉREBRO ANCESTRAL

    NÃO!

    Não pronuncie. Ela ainda vive no nome. E o nome… é uma lâmina

    SISTEMA LÍMBICO

    …então o que somos nós, se ele voltar? O que seremos, se ele lembrar?

    CÉREBRO ANCESTRAL

    Nada.
    Poeira.
    Silêncio no neocórtex.
    Morte do abismo.
    Um canto esquecido de um sonho que não ousou ser sonhado.

    (uma vibração — mínima, mas com a força de uma placa tectônica. Algo se ergue, vagaroso, do pântano da inconsciência. Luz. Um feixe. Luz crua. Real.)

    SISTEMA LÍMBICO

    (parece um soluço)

    Ele… está vindo.

    CÉREBRO ANCESTRAL

    Então… que venha.
    Com suas pernas tremendo.
    Com sua boca seca.
    Com seus olhos que não sabem onde olhar.

    (sussurra, grave e paciente)

    O mundo vai esmagá-lo outra vez. E nós estaremos esperando quando ele cair.


    VOCÊ

    Respira. Engasga um pouco com o próprio hálito. Não se lembra do último gole d’água. Ou de pensamento. O que há agora é matéria — carne suada e ar de ontem.

    • Sistema respiratório reativado.
    • Obstrução parcial na traqueia.
    • Indício de desidratação e apneia recorrente.

    A perna direita estremece.
    A esquerda segue em coma.
    Você move os dedos do pé.
    Não é prazeroso, nem simbólico.
    É funcional.
    O suficiente.

    • Sinal nervoso reestabelecido.
    • Dormência residual nos membros inferiores.
    • Mobilidade: 41%.

    O olho direito abre.
    O esquerdo protesta.
    Não foi consultado.
    Há uma fresta de luz na janela.
    A cidade respira lá fora.
    Você não.

    • Fonte luminosa detectada.
    • Hora estimada: entre 06h00 e 09h30.
    • Nenhum marcador confiável presente.


    TRAVESSEIRO

    Chega mais perto. Deixe eu te contar um segredo: você ainda dorme com ela, mesmo sem ela. Eu sei. Eu escuto seus gemidos sem sonho. Eu coleto seus vazios.

    • Referência afetiva identificada.
    • Risco emocional: crescente.


    VOCÊ

    Vira o rosto. O travesseiro ri.
    O mundo gira 12 graus à direita. Sua espinha protesta como um manifesto.

    • Coluna desalinhada.
    • Sensação de areia entre vértebras L2 e L5.
    • Capacidade de rotação: parcial.


    CAMA

    Éramos cúmplices. Agora sou cúmplice de crime. Você deveria me trocar. Mas eu ainda o aceito. Aceito tudo o que você derrama.


    O ventilador no teto range.
    Ele está tão cansado quanto você.
    Pelo menos ele gira. Você está onde sempre esteve.

    • Padrão de estagnação detectado.
    • Sentimento:
      • circularidade
      • futilidade
      • lamento difuso.

    Você tenta se sentar.
    Cada músculo protesta com veemência sindical.
    Mas você vence. Levemente torto. Mas vence.

    • Postura de transição concluída.
    • Gravidade mantida.
    • Risco de colapso: médio.


    VOCÊ

    Senta-se na borda da cama. A mão pousa sobre o joelho como se estivesse tentando provar algo para alguém. Mas não há ninguém aqui. Exceto você. E suas notificações.

    Seu celular vibra. Você o ignora. Ele vibra de novo. Teimoso.


    CELULAR

    Nenhuma novidade. Tudo segue bem sem você. Você era… opcional.

    • Dispositivo ativo.
    • Notificação recebida às 03h12: “saudades da nossa bagunça…”
      • Contato desconhecido.
      • Possível spam emocional.

    Você respira.
    Pela segunda vez.
    Agora parece mais real.
    Mais amarga.

    • Sabor metálico.
      • Indicativo de hipoglicemia.
    • Você comeu pela última vez há… erro de sistema.
      • Informação ausente.

    O chão está logo ali.
    Frio.
    Concreto.
    O juiz silencioso de cada manhã não vivida.
    Você sabe o que precisa fazer.
    Mas ainda não decidiu se fará.

  • Luto, Vazio e Reencontro

    março 1st, 2023

    A superfície do sono rejeita.
    Você não está convidado.
    Adeus.

    Exilado, você acorda.

    CÉREBRO ANCESTRAL

    O perigo está distante, quase esquecido, por enquanto. Sua chance de desaparecer em algum canto escuro do universo está temporariamente adiada. Já que ainda está aqui, melhor fingir.


    A luz cinzenta da manhã te encara.
    Tudo é frio, despido de qualquer exagero.
    Nenhuma cerimônia.

    Você se senta na beira da cama.
    As mãos pousam nos joelhos.

    SISTEMA LÍMBICO

    Você não compartilha mais o mundo com ela? Sem calor? Ela levou junto aquela coisa… esqueci o nome… Ah, sim: café da manhã.

    Dolorosos retalhos de memórias, colados de qualquer jeito, descascam lentamente dentro de você. Não há como costurá-los novamente. A ferida é profunda, além do alcance.

    RESISTÊNCIA

    Você pode me deixar cuidar disso. Não precisamos sentir isso se você não quiser. Podemos reprimir isso.

    MEIA-LUZ

    Posso…?

    RESISTÊNCIA

    Não.

    Não há tristeza.
    Há ausência.
    Nenhum pensamento, ou esforço consciente de não pensar.
    Uma silenciosa resignação à gravidade.

    VOLIÇÃO

    Ei. Levante-se. Basta um pequeno esforço. Não está fácil, eu sei. Mas ainda temos um corpo aqui.

    Você se arrasta até o banheiro como uma criatura gosmenta.
    A água quente é o seu primeiro contato com o mundo real após o sonho.
    A realidade queima pela pele.
    Ela está te lembrando do seu nome hoje.

    ENCICLOPÉDIA

    O que você sente agora é chamado de nocicepção. Não me pergunte como você sabe disso. Esse é um termo introduzido em 1906 pelo neurocientista Charles Sherrington. Veja que curioso: as terminações nervosas disparam sinais ao córtex cerebral quando há mudanças abruptas de temperatura. Aliás, soldados napoleônicos relataram sensações semelhantes durante o inverno russo de 1812. Sentir dor, afinal, é uma garantia de que ainda está vivo. Em vários sentidos, aliás…

    RESISTÊNCIA

    Não finja que gosta dessa dor, quem paga esse preço sou eu, seu egoísta filho da puta.

    Você estende o braço e limpa o vapor do espelho.
    Um observador turvo devolve seu olhar.

    MEIA-LUZ

    Você viu isso? O reflexo. Não confie. Nem em você mesmo.
    Olhar no espelho — quer desafiar ou fugir? Tanto faz. O golpe vem, não importa.
    Abaixe a guarda e será tarde demais. Prepare-se. Não há escolha.
    O perigo é você. O perigo é agora.

    As gotas deslizam.
    Algumas no vidro. Outras além.
    Não importa mais de onde vêm.

    Tudo escorre junto.

    PERCEPÇÃO

    Veja. Aquela gota, ali, parada na borda do olho. Demora mais que as outras. Não é só água — possui peso, está hesitante.

    DRAMA

    Senhoras e senhores — silêncio na plateia! Eis o momento aguardado: o protagonista, depois de tanto ensaio, se apresenta para as cadeiras vazias. Aplausos tímidos, luzes apagadas, cortina de névoa. Que espetáculo? Uma só cena, repetida cansativamente: esperar algo mudar, mas nada responde. Bravo, bravo… Que atuação deploravelmente autêntica.

    IMPÉRIO INTERIOR

    Diga… você busca encontro no reflexo ou se perdeu de novo entre rostos antigos? Fotografias não são só retratos — são armadilhas de tempo. Veja: aquilo que é memória pode se tornar presente. E, às vezes, o presente inteiro é apenas o intervalo entre duas lembranças. Reflita… quantos de si repousam nesse vidro embaçado? Você é muito feio.

    RESISTÊNCIA

    Cale-se! Já sabemos onde isso termina!

    SUGESTÃO

    Repita que está tudo bem. Quem sabe me convence primeiro?

    IMPÉRIO INTERIOR

    Não precisa ser bonito. Apenas… algo

    Por um mínimo instante,
    você não está mais no banheiro.
    Você está refletido,
    suspenso entre duas gotas que escorrem lentamente.

    Sua existência definida pelo intervalo entre um deslizar e outro.
    Você é sobras.

    E, por algum motivo obscuro, essas sobras bastam para continuar.


    VOLIÇÃO

    Já chega. Você não pode continuar aqui, se escondendo._

    RESISTÊNCIA

    Esconder? Não me faz rir. Estou protegendo o que resta. Deixe-me em paz. Deixe-nos em paz.

    VOLIÇÃO

    O que resta é o que você nega encarar. Isso não é proteção. É prisão.

    RESISTÊNCIA

    Você não entende. Não consegue entender! Só há rejeição e angústia além daqui. Aqui dentro não é o melhor lugar, mas é seguro.

    VOLIÇÃO

    Seguro? Segurança não é estagnação. Você está negando a única coisa que realmente importa.

    RESISTÊNCIA

    E o que seria isso? Sua coragem infantil de continuar, de tentar, mesmo sabendo o quanto custa? Já vimos o suficiente. Já sabemos o fim dessa história.

    Um silêncio pesado paira no ar, reverberando pelas paredes internas.

    DRAMA

    Se fosse permitido opinar, devo dizer que adoro o clima dramático, mas alguém pode ligar a ventilação aqui dentro? Está abafado demais para cenas tão intensas como a desses dois.

    VOLIÇÃO

    Você está certo, sabemos o fim dessa história. Sabemos o custo.
    Mas o preço mais alto é não pagar.
    É não viver.

    Eu não prometo facilidade, nem conforto constante.
    Mas prometo que você não estará sozinho nessa travessia.
    Você nunca esteve.


    Você veste uma blusa.
    O tecido toca a pele que você mal secou.
    O chão frio te lembra que o mundo existe.
    Há algo lá fora esperando.
    Nada específico — apenas o próprio.

    A maçaneta gira.
    A porta se abre.

    CALAFRIOS

    Lá está ele — o mundo. Embriagado de nuvens, tremendo em tons de chumbo, mas vivo.

    O vento corre entre os fios da sua roupa tentando te reconhecer. Há cheiro de terra molhada no ar, mas não choveu. Alguém regou plantas. Em algum lugar, um cachorro latiu como se pressentisse algo novo.

    E, por um momento, o tempo pareceu parar para assistir você sair.

    É tudo familiar, mas de um jeito diferente. Um mundo antigo, devolvido com pequenos defeitos. Uma rachadura na calçada que você nunca notou. Uma folha presa em arame farpado, lutando contra a gravidade.

    Você é essa folha hoje — hesitante,
    mas ainda assim em queda.

    Você respira fundo.
    O ar está úmido.
    O céu cinzento.
    Não há sol. Mas há luz —
    uma luz difusa, gentil,
    como um lençol lavado secando em silêncio.

    Um movimento interno — tênue, mas real — começa a empurrar o corpo adiante.

    Um passo.
    Depois outro.


    VOLIÇÃO

    Ainda dói.
    E vai doer.
    Mas agora… você está caminhando.
    Isso é o suficiente por hoje.

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