Quatro marcas de unha na palma da mão esquerda. Meia-lua. Meia-lua. Meia-lua. Meia-lua. Abertas durante a noite por dedos que se fecharam sobre uma coisa que o colchão não tem mais. O sangue secou nas bordas. A dor ainda está fresca.
SISTEMA LÍMBICO – Aqui estamos novamente, meu pássaro quebrado. A coisa-de-carne ao seu redor geme. Ela geme e range e se recusa a parar de funcionar. Os tendões do pescoço esticam, as costas doem onde a vértebra encontra a vértebra e entre elas, areia. Seu coração insiste. Que motor estúpido.
CÉREBRO REPTILIANO ANCESTRAL – Volta. Irmão. Volta pra baixo. Havia o escuro antes desse teto. Havia o oco. Não tem mancha lá embaixo. Não tem lençol cheirando a suor de três dias. Não tem ar com gosto de boca seca. Desce.
Seus olhos estão abertos. Você não decidiu que estariam, mas estão.
Mas os olhos já abriram. Os olhos não consultam ninguém.
O teto tem uma mancha de infiltração no canto esquerdo. Cresceu. Você sabe porque olha para ela toda manhã.
O ventilador gira no teto. Rangendo na terceira volta. Cada vez. Você conta: uma, duas, range. Uma, duas, range. O eixo tem folga. A porca soltou. O ventilador precisa de manutenção que ele nunca vai receber porque manutenção exigiria uma chave de fenda e a chave de fenda está na gaveta da cozinha e a cozinha fica a oito metros daqui e oito metros é longe.
LÓGICA – O corpo está na cama. Dia útil. O computador está virado para a parede desde terça. A cadeira vazia. O trabalho começou às nove ou não começou. O gerente vai enviar uma mensagem às 10h15 com exatamente quatorze palavras. Você vai responder com seis. A internet vai ser a culpa. Quarta semana.
INSTRUMENTO FÍSICO – QUE PORRA ESTÁ ACONTECENDO COM VOCÊ? Levanta. Levanta, seu frouxo. Senta nessa cama. Põe o pé no chão. A gravidade funciona pros dois lados, caralho: ela te empurra pra baixo e te mantém de pé. Escolhe um.
AUTORIDADE – Você é um profissional. Aja como um.
INSTRUMENTO FÍSICO – Cala a boca.
Você senta. Os músculos reclamam. Ácido lático, atrofia, desuso. Os pés tocam o cimento. Frio. A sola do pé registra. O cérebro recebe. Ninguém faz nada.
COMPOSTURA – Ombros: caídos. Mandíbula: cerrada. As mãos entre os joelhos.
O lado esquerdo da cama. O lençol amassado na diagonal. Tem um cabelo. Escuro. Comprido. Preso no elástico do lençol, perto do travesseiro. Pode ter um mês. Pode ter mais.
VELOCIDADE DE REAÇÃO – Não toque.
A mão vai. A mão não escutou. Os dedos puxam o fio. O fio se solta do tecido com um som mínimo, quase uma nota.
MEIA-LUZ – LARGA. Larga essa merda agora. O que você vai fazer com um cabelo? Guardar? Cheirar? Emoldurar? Você sabe o que tem do outro lado disso. Você sabe aonde esse fio puxa. SOLTA.
Você segura o cabelo entre o polegar e o indicador. Contra a luz da janela. Um fio escuro de setenta centímetros suspenso no ar do quarto.
IMPÉRIO INTERIOR – … ela estava sentada ali. Nessa cama. De costas pra janela. A luz recortava os ombros. Ela mexia no celular com as duas mãos e às vezes ria de um vídeo e o som da risada… onde foi? Estava aqui. Há um espaço onde ela sentava. O espaço está vazio. Se você colocar a mão ali, se tocar o lençol ali, ainda tem… não. Não tem. Tem o lençol. Tem a fibra do lençol e debaixo dela o colchão e debaixo dele o estrado e debaixo de tudo o chão e nenhuma camada guarda o que você está procurando.
*O cabelo. Ela deixava cair no travesseiro. No lençol. No chão do banheiro. Você reclamava. Ela ria. A escova cheia de fios, um emaranhado escuro que ela tirava com os dedos e jogava no lixo com uma naturalidade que agora…*
ELETROQUÍMICA – …eu tô ficando maluco aqui embaixo. Faz quanto tempo sem nicotina? Três dias? Quatro? O pulmão tá pedindo, meu irmão, o pulmão tá de joelhos no chão implorando e você tá aí segurando um cabelo contra a luz feito um cientista de filme ruim—
VOLIÇÃO – Solta o cabelo.
Você solta. Ele cai no chão. Demora. Fios de cabelo demoram para cair. Planando. Oscilando.
CONCEITUALIZAÇÃO – Isso. Preste atenção nele caindo. A queda lenta de uma coisa que foi parte de alguém e agora é matéria sem endereço. Tem algo aí. Tem um poema aí. Não. Não tem um poema. Você não escreve poemas. Você trabalha em home office e não lava a fronha. Esquece.
O celular brilha na mesa de cabeceira. A tela acende sozinha.
VELOCIDADE DE REAÇÃO – Notificação. Promoção. Operadora. Relaxa.
DRAMA – Oh, milorde. Que alívio! Por um segundo terrível — por um segundo que durou exatamente o tempo de um batimento cardíaco — você achou que era *ela*. Porque você configurou o bloqueio, mas também sabe, meu amo, que bloqueios são reversíveis e que as pessoas encontram caminhos e que ela mandou mensagem pelo seu amigo, e o seu amigo mostrou, porque ele é honesto demais para esconder e gentil demais para entregar sem olhar na sua cara primeiro, e a mensagem dizia…
VOLIÇÃO – Não.
DRAMA – …dizia que…
VOLIÇÃO – Pare.
DRAMA – “Sinto falta de você apesar de—”
MEIA-LUZ – PARA! POR QUE VOCÊ FAZ ISSO? Toda manhã. Toda porra de manhã essa voz abre a mesma gaveta e tira a mesma faca e encosta no mesmo lugar. Manda ela calar a boca. MANDA.
Silêncio.
O ventilador: uma, duas, range.
Você fica olhando para o chão entre os pés. Cimento queimado. Cinza. As bordas encardidas onde o pano de chão nunca chega. Tem uma formiga andando em linha reta na direção de lugar nenhum visível.
ENCICLOPÉDIA – A formiga operária (Formicidae, subordem Apocrita) pode carregar entre 10 e 50 vezes seu próprio peso. O sistema nervoso dela consiste em um gânglio cerebroide e uma cadeia nervosa ventral, o que significa que ela está tecnicamente operando com uma fração negligenciável da capacidade cognitiva necessária para o que se definiria como “dúvida”. Ela não hesita. Nunca hesitou.
CONCEITUALIZAÇÃO – Isso é horrível. Uma horrível alegoria. Você é a formiga. Ou você é o chão. Ou você é a coisa invisível para onde a formiga vai. Escolha uma opção e sofra de forma esteticamente coerente, pelo amor de tudo que é sagrado.
RETÓRICA – Esteticamente coerente? Essa é a preocupação? Vamos catalogar: você está sentado de cueca numa cama com lençol sujo olhando uma formiga no chão de um quarto que cheira a roupa molhada esquecida na máquina, e a proposta é que isso tenha coerência estética?
CONCEITUALIZAÇÃO – Sim.
RETÓRICA – Diga isso no seu funeral.
INSTRUMENTO FÍSICO – A formiga tá indo pra cozinha. Ela sabe onde tem comida. Você não sabe? VAI ATRÁS DELA.
Você não vai atrás dela.
O travesseiro. Está do outro lado da cama. Chutado durante a noite. A fronha amarelada. Tem um cheiro ali. Fraco. Lavanda misturada com alguma coisa cítrica. Embaixo do seu próprio cheiro de couro cabeludo e suor azedo. O cheiro dela. De um xampu que ela usava e que você nunca soube a marca e nunca perguntou.
Você não lavou a fronha.
LÓGICA – Dezessete dias sem lavar. A concentração molecular de qualquer resíduo de xampu caiu abaixo do limiar olfativo em condições normais há pelo menos dez dias. O que você está fazendo não tem amparo químico.
IMPÉRIO INTERIOR – Mas está lá. Está lá embaixo. Se você pressionar o rosto… se você afundar o nariz na fibra… tem um vestígio. Uma camada. Enterrada. Como uma voz muito longe chamando seu nome num corredor comprido…
*…ela passava pelo corredor. Aquele. Da escola. Você tinha treze anos ou quatorze, a memória não guarda número, guarda a luz que batia nas costas dela e o ar que mudou de temperatura e os seus pulmões que precisaram de mais espaço de repente como se o oxigênio tivesse ficado grosso…*
MEIA-LUZ – Não vá por aí.
IMPÉRIO INTERIOR – …e ela não te viu. Ela nunca te viu. Você era o vidro da janela do ônibus e ela passava no ponto e você olhava e o ônibus sacudia e a cada solavanco ela ficava mais longe e mais insuportavelmente
MEIA-LUZ – EU DISSE PRA NÃO IR POR AÍ
IMPÉRIO INTERIOR – presente.
Silêncio de novo.
SUGESTÃO – Talvez se você ligasse pra ela e—
VOLIÇÃO – Não.
SUGESTÃO – Nem terminei.
VOLIÇÃO – Não precisa.
EMPATIA – …uma tremenda solidão se abate sobre você. Todos no mundo estão fazendo alguma coisa sem você.
RESISTÊNCIA – Cönfrade. Eu sei que o terreno é árduo. Olhe para os que vieram antes de você. Cada um deles carregou a merda que era dele nas costas até o topo da montanha e jogou do penhasco e desceu e carregou de novo. Toda manhã. A merda volta. Você carrega. Essa é a cerimônia. A única.
O quarto é pequeno. Oito metros quadrados. Quando tinham dois corpos aqui os oito metros quadrados eram exatos. Agora sobram cantos. Sobra parede. Sobra o espaço entre a cama e a mesa que era onde ela ficava em pé decidindo se ia embora ou ficava e geralmente ficava e agora não fica.
O computador virado pra parede. Você virou ele terça à noite porque a tela desligada reflete o quarto no escuro e no quarto refletido tem a cama e na cama tem o lado vazio.
LÓGICA – Virar o computador para a parede resolve a reflexão mas não o problema. O problema continua atrás de você. O computador agora é só um computador de costas.
INSTRUMENTO FÍSICO – A solução REAL seria dar um murro nessa tela e comprar outra. Mas você não tem grana pra tela nova. Então aceita a gambiarra.
LIMIAR DE DOR – Bruxismo. Três semanas. A mandíbula trava quando engole. Os molares de baixo estão gastos na face oclusal. Você está triturando os próprios dentes à noite.
A mão esquerda. Quatro marcas de unha na palma. Você olha de novo.
ELETROQUÍMICA – Sabe o que ajudaria? Uma cerveja. Uma cerveja gelada agora resolvia pelo menos três dos seus problemas e criava só dois novos. A matemática é favorável. Tem uma vendinha na esquina que abre cedo. Eu sei que são oito da manhã. E daí? Desde quando você virou o cara que respeita horário socialmente adequado pra consumo de álcool? Desde quando você virou *qualquer* cara?
VOLIÇÃO – Não.
SUGESTÃO – Vá no banheiro. Lave o rosto. Água fria. Você não precisa se olhar no espelho. Você pode lavar o rosto com os olhos fechados. As pessoas fazem isso.
Você não vai ao banheiro. Você fica.
Da janela entra um fio de ar frio. Seus pelos arrepiam. Os do braço, os da nuca. A pele se contrai.
CALAFRIOS – Do lado de fora, na rua debaixo, alguém abre um portão. O barulho metálico sobe pela janela e entra no quarto.
Você congela.
CALAFRIOS – Dobradiça velha, ferro com ferro, uma frequência aguda no final. Passos. Moto. Alguém indo trabalhar, vivendo uma terça-feira que funciona.
*Mas esse não é o portão. O portão era outro. O portão era…*
MEIA-LUZ – Não. Isso agora não.
Tarde demais.
IMPÉRIO INTERIOR – O portão fechou e você estava do outro lado. A trava encaixou. Metal contra metal. E antes disso a caixa. A caixa com as suas coisas do lado de fora. A bicicleta tombada no meio-fio. E ela do lado de dentro, com o primo, e o portão trancado, e a trava.
RESISTÊNCIA – Você ficou de pé naquela calçada como um cönfrade que perdeu o cavalo, a espada e a dignidade na mesma batalha. Mas ficou de pé.
INSTRUMENTO FÍSICO – Ficou de pé porque os joelhos ainda funcionavam. Se funcionassem menos, você teria sentado no meio-fio do lado da caixa e ficado ali até o sol queimar essa cara patética.
EMPATIA – O primo. Ele olhou pra você com aquela cara… você lembra da cara dele? Ele não queria estar ali. Ele foi chamado. Ele te olhou e no fundo dos olhos dele não tinha raiva. Tinha pena. E pena era pior.
VOLIÇÃO – Você mandou a foto pro amigo. A caixa, a bicicleta, a calçada. Não escreveu nada. O amigo veio. Não perguntou nada. Entrou no carro.
*Isso é o que importa.*
DRAMA – Oh, meu amo… a festa na casa dele. Parabéns, bolo, gente. Você sentou no canto. Você sorriu quando alguém olhava. A máscara magnífica! Ninguém percebeu! Ninguém percebeu que o ator principal estava sangrando por dentro, porque a maquiagem era impecável e o roteiro era: “tudo bem, tô de boa, obrigado.”
*A plateia aplaudiu! A plateia nem sabia que era plateia!*
*E depois — em casa — o rosto soltou. O chão recebeu você de joelhos. O travesseiro absorveu o som. O volume da caixa de som cobriu o resto. Ninguém ouviu.*
*Cortina.*
ENCICLOPÉDIA – A exposição prolongada a estresse agudo pode induzir uma resposta vagal que—
INSTRUMENTO FÍSICO – CALA A BOCA.
Você está de volta no quarto. Sentado na cama. O cabelo dela no chão perto do pé esquerdo. A formiga sumiu. Mas a memória ficou. Ela fica.
LÓGICA – Oito anos. Uma chuteira. Seu pai. Sua bisavó disse a frase. Ele tomou o presente de volta. Não o objeto. O gesto. A chuteira voltou depois. A criança que a recebeu de volta já tinha aprendido a coisa.
Qual coisa.
LÓGICA – Você sabe qual coisa.
EMPATIA – Ela se assustava. Toda vez. Você aceitava rápido demais e ela olhava pra você e nos olhos dela tinha uma coisa… confusão misturada com alívio misturada com medo. Porque no fundo ela sabia. Ela sentia. Ela não conseguia nomear, mas sentia.
DRAMA – Uma atuação primorosa, meu amo! Só havia um problema: o ator também acreditou na própria performance. Até o dia em que sentou no chão da casa dela e se recusou a ir embora e a recusa foi tão inesperada — pra você e pra ela — que os dois ficaram paralisados.
*E veio o primo. E veio o portão. E veio a calçada.*
Uma, duas, range.
O ventilador. O celular brilha e apaga e brilha e apaga. Você ainda está no quarto.
ELETROQUÍMICA – Escuta. Eu sei que ninguém quer ouvir de mim agora. Mas tem que comer alguma coisa. Ovo. Bolacha. O resto daquele arroz de ontem. O corpo tá pedindo socorro de formas que você tá ignorando e ignorar o corpo é burrice, meu irmão. A grana tá curta, o armário tá vazio, a geladeira faz barulho de animal morrendo, eu sei, eu sei, mas um ovo frito leva três minutos e três minutos é o tempo que você gasta olhando pro teto todo dia às seis da manhã, então dá pra realocar.
VOLIÇÃO – Levanta.
INSTRUMENTO FÍSICO – Levanta, caralho.
VOLIÇÃO – Não assim.
INSTRUMENTO FÍSICO – Exatamente assim.
O pé esquerdo empurra o chão. Depois o direito. Os joelhos estendem. Alguma coisa estala na lombar. O corpo sobe.
De pé.
COMPOSTURA – Torto. Mas de pé.
CONCEITUALIZAÇÃO – Eis o homem. A vertical triste. Um monumento a absolutamente nada, erguido por
RETÓRICA – Para.
CONCEITUALIZAÇÃO – …eu ia dizer uma coisa bonita.
RETÓRICA – Eu sei. Por isso parei.
CALAFRIOS – O ar frio da janela bate no seu peito nu. A pele se arrepia. Os pelos da nuca levantam.
*Lá fora, o sol bateu na parede do vizinho e o reboco descascado brilha como um dente lascado. A linha de ônibus passa na rua de cima. O motor diesel sacode os vidros das janelas. Numa casa vizinha, uma criança chama o cachorro pelo nome errado e o cachorro vem assim mesmo.*
*A cidade acorda sem cerimônia. Sem esperar. Sem consultar.*
A cozinha fica a oito metros. A torneira pinga. Pode ouvir daqui. A geladeira zumbe. O compressor faz um barulho que piora toda semana.
Oito metros. A chave de fenda está na mesma gaveta. A torneira pinga. A formiga já chegou lá. Você ainda está aqui.
RESISTÊNCIA – Anda. Um pé depois do outro. Você carrega o que tem que carregar. Não existe outra cerimônia.
Você vai até lá.
A torneira está pingando. Você abre ela. A água sai gelada. O cano velho treme. Você enche o copo.
ELETROQUÍMICA – Deus, isso é bom. Você sente?
A água desce. Gelada. Os dentes doem por causa do bruxismo. A garganta aceita. O estômago acorda.
LÓGICA – Primeiro copo d’água em catorze horas.
CALAFRIOS – A torneira pinga uma última gota depois que você fecha. A gota bate na pia de inox. O som ecoa pela cozinha vazia. Pela janela da cozinha, o céu está cinza e baixo e o vento dobra o varal da vizinha e uma camiseta molhada bate contra si mesma sem parar como uma coisa tentando aplaudir.
Você olha pela janela.
IMPÉRIO INTERIOR – …em algum lugar dessa cidade, ela também está acordando. Ou não. Ou já acordou. Ou não dormiu. Você não sabe. Não vai saber. A frequência que conectava vocês dois está cortada e o ar entre aqui e lá é ar e nada mais.
VOLIÇÃO – Bebe o resto da água. Depois frita o ovo.
Você bebe o resto da água.