Um rangido comprido de madeira e metal quebrou o silêncio da sala. Era a velha Singer de pedal, reclamando do movimento hesitante que Augusto fazia com o pé. A máquina de costura tossiu engasgada duas vezes, como se estivesse acordando de um sono de anos. Um fiapo de linha pendeu da agulha enferrujada, tremendo no ar empoeirado.

Augusto passou o dorso da mão na testa, espalhando suor e pó. Estava quente, mas ele deixava a janela fechada. A claridade de meio-dia entrava por uma fresta das tábuas mal encaixadas, riscando o chão com um facho de luz ofuscante. Ele semicerrava os olhos para aquela faixa luminosa. Teimosa, insistente. Há semanas o trinco emperrara, então a janela ficava assim, entreaberta, dois dedos apenas.

Luz demais irritava, revelava a dança das partículas de poeira no ar, como fantasmas pequenos rodopiando sem sentido. Augusto preferia a penumbra imóvel.

Na rua estreita lá fora, sons escorriam pelas paredes até ele: um pregão de vendedor de jornais, risadas de crianças ao longe, e o latido ocasional de um vira-lata manco líder de gangue que rondava a calçada se achando o dono da rua. O mundo seguia bem vivo lá fora, mas dentro daquelas paredes quem tomava conta era o marasmo.

Sobre a mesa ao lado da máquina, uma xícara com borras seca de café testemunhava a manhã que passara. Ele a empurrou de leve, e o objeto fez um círculo lento, deixando um rastro de pó no tampo. Quase desenhando um símbolo incompreensível.

O pedal rangeu de novo quando Augusto retomou o movimento. Tentava costurar um retalho grosso de brim, talvez para remendar a própria calça desgastada. Mas a agulha teimava em não perfurar direito. Cada descida falhava em atravessar todas as camadas do tecido. Ele colocou mais força no pé, e a máquina respondeu com um “nhec” metálico alto. — Vambora, sô — murmurou com os dentes cerrados, como se tivesse raiando com um burro velho. Sentiu um pique de raiva subir pelos braços até as mãos trêmulas.

De repente, um estampido seco: a linha estourou. Augusto parou. Olhou a lasca de fio esbranquiçado balançando tola no vazio. Só um fiapo inútil pendendo, como um pensamento que escapoliu solto. Ele respirou fundo. A sala parecia que segurava o fôlego junto com ele.

— Merda… — escapou-lhe, como se fosse um suspiro.

Era a terceira tentativa do dia. Três linhas rompidas, três agulhas cegas. A costura não ia, por mais que tentasse e insistisse. Podia ser que o tecido fosse duro demais, ou talvez suas mãos já não tivessem mais jeito. Ele largou o retalho de lado, esfregando os dedos indicadores que doíam de guiar a costura. Os calos antigos ali já não tinham dó mais.

Sentou-se igual um saco de batata na cadeira de madeira, queixando-se baixo quando a coluna xiou. Ficou um tempo olhando a máquina imóvel à sua frente. A velha companheira. Ferro fundido negro, base ornamentada com arabescos cheios de pó. Tantas lembranças costuradas naquele objeto.

No canto da sala, encostado na parede, tinha um berço desmontado e uma mala velha. Sobre a mala, um pequeno par de sapatinhos gastos. Augusto desviou o olhar bem rápido; encarou de novo a máquina. Melhor olhar para a besta de ferro do que para fantasmas.

Com um movimento bruto, puxou a gavetinha frontal da Singer. Dentro, além de uns carretéis e algumas agulhas tortas, estava algo envolto num pano de linho amarelado. Ele hesitou, mas acabou que ele puxou levemente a ponta do tecido, revelando o brilho de metal polido: um revólver, pequeno, antigo, descansava ali. O cabo de madeira tava gasto pelo uso ou pelo tempo. Augusto não o pegava já fazia anos, mas ele também não largou mão dele. Ficava ali, silencioso, pesando na gaveta e na consciência.

Ele empurrou a gaveta de volta com um baque, como se fechasse uma porta antes que alguma memória indesejada fosse sair lá de dentro.

Foi então que ouviu o sussurro do lado de fora da janela:

— Moço… sinhô… — A voz era miúda, rouca.

Augusto virou a cabeça na direção da fresta de luz. Viu um olho escuro espiando pelo vão da janela emperrada. Apenas um olho e metade de um rosto sujo, na altura do ferrolho.

— Quem é que taí? — ele perguntou, a voz saindo mais ríspida do que pretendia.

O olho recuou um pouco, mas logo surgiu dois olhos, o rosto todo, encostado à madeira. Era um menino, talvez uns dez anos, magro feito um graveto, cabelo emaranhado. O garoto abriu um sorriso amarelo, dentes espaçados que dava pra ver a língua, ele era meio tímido, meio pidão.

— Boa tarde, sinhô — disse o menino, num fio de voz que mal atravessava a fresta. — O sinhô não tem umas coisa véia aí pra vender, não? Caqué coisa mesmo… pano véi, ferro, garrafa… Eu tem uns trocado.

Ele mostrava na mão ossuda algumas moedas sujas. Augusto reconheceu: o menino era um catador, daqueles que juntam cacarecos pra vender pro ferro-velho. Já o tinha visto pela rua, empurrando uma carroça improvisada. Lembrava talvez de tê-lo espantado do quintal uma vez, meses atrás, quando o moleque fuçava a pilha de entulho atrás da casa.

— Não tenho nada pro cê, não — respondeu Augusto seco, porém sem elevar muito a voz. Sentiu um incômodo; a presença do garoto lhe trazia à boca um gosto amargo, ferrugem talvez. — Vai embora.

O menino, em vez de sumir, insistiu com cuidado:
— O sinhô num tem mesmo, não? Caqué coisa já ajuda…

Aquela vozinha arranhava os ouvidos de Augusto feito unha em telha velha. Ele fechou os olhos um instante, aspirou o ar poeirento tentando paciência.

— Só tenho tralha quebrada aqui. E tralha eu mesmo uso — mentiu, pensando nas poucas panelas amassadas, nos móveis capenga. E no que guardava na gaveta da máquina. — Vaza, vai embora.

O menino fungou do outro lado. Talvez estivesse resfriado, ou fosse decepção. Augusto sentiu um fiapo incômodo pinicar-lhe a consciência, mas o abafou logo. Não era problema dele. Ele já tinha suas cruzes, não carregaria mais uma.

Fez com quem ia se levantar para ir fechar de vez a janela emperrada, mas a voz tornou a soar:

— O sinhô… conserta as coisa? Eu vi o sinhô com a máquina… costura roupa, num é? — arriscou o garoto.

— Não. Quer dizer, sim, costuro, mas… não pego serviço. Tô fechado, fechado — respondeu Augusto rápido. A última coisa que queria era mais trabalho ou gente entrando naquele mausoléu que chamava de casa.

Os dois ficaram em silêncio um instante. Augusto achou que agora ele desistiria. Porém, ouviu-se um estalinho, e por baixo da fresta surgiu empurrado um objeto pequeno: um ursinho de pelúcia, marrom encardido, com uma orelha faltando e a barriga aberta, espalhando algodão. O bichinho atravessou a soleira empoeirada e tombou de lado no chão da sala.

— Eu pago, viu. Eu um tem muito, não, mas… — A voz do menino tremeu um pouco. — Era do meu irmãozin. Ele chorou a noite toda purque rasgou.

Augusto ficou estático, olhando o ursinho caído. A cor desbotada do brinquedo, os olhos de botão preto encarando nada. Lembrou-se sem querer dos próprios dedos miúdos segurando um brinquedo remotamente parecido, décadas atrás… Um fragmento de lembrança, rápido como o piscar de um slide, iluminou um canto escuro da mente dele: alguém, uma figura alta, tomando o brinquedo de suas mãos de criança. Depois, escuridão novamente.

— Não trabalho de graça — murmurou Augusto, a garganta seca. Sentiu necessidade de dizer algo, qualquer coisa, para espantar aquele espectro de lembrança.

— Eu pago, sinhô — insistiu o garoto lá fora, esperançoso.

Por que aquele moloque não ia embora de uma vez? Augusto respirou fundo e se levantou, enfim. A cadeira arranhou o piso com um guincho. Ele se abaixou, pegou o ursinho com dois dedos, como se fosse uma coisa frágil ou suja demais. Aproximou-o dos olhos: o rasgão na barriga deixava escapar um tufo de algodão amarelado. Uma das perninhas por um fio. Com a outra mão, Augusto empurrou a porta semiaberta. A claridade inundou a sala e o fez semicerrar os olhos.

Agora via o menino inteiro, em pé à sua porta, a mão espalmada com as moedinhas. Havia expectativa ansiosa no rosto encardido. Havia sujeira e cansaço também.

— Quanto paga? — perguntou Augusto, quase desaforado. Não sabia bem por que não mandava o garoto sumir.

O menino abriu a mão, exibindo as três moedas como um tesouro.
— Tem isso… dá pra um pão só, mas eu divido com o sinhô, eu juro.

A oferta soou ridícula. Dividir um pão duro talvez, em troca de remendar um brinquedo velho. Uma risada seca escapou do canto da boca de Augusto antes que ele contivesse. Era isso que restava do mundo?Trocar trabalho por um pedaço de pão velho, igual dois mendigos?

— Guarda essas moedas, menino. Vai precisar pro pão. — Ele devolveu o riso curto, mas sem alegria. — Me dá esse negócio aqui.

O garoto obedeceu, guardando as moedas no bolso furado do shorts que um dia já foi calça antes de ser rasgada no joelho. O que parecia ser uma alça arrancada de uma sacolinha de plástico servia como cinto amarrando os passantes um no outro. Augusto deu meia-volta e foi até a mesa de costura, segurando o ursinho com certa delicadeza agora.

Sentou-se de novo à máquina. Os olhos do menino seguiam cada movimento, ele agora espreitava pela porta aberta, porém não ousava entrar sem convite.

Augusto remexeu na caixinha de costura, escolheu uma linha grossa, bege encardido que combinaria bem com o tecido puído do brinquedo. Ajeitou os óculos que tirou do bolso da camisa e enfiou linha na agulha com dificuldade. Não era um trabalho difícil, bastava costurar a barriga aberta, reforçar a perna. Em dois minutos resolveria aquilo. Mas suas mãos, antes firmes na costura de couro e brim, tremiam fininho. Ele sentiu.

A cada tremida boba, a agulha escapava ou o fio deslizava torto. Praguejou em silêncio. Por que estava nervoso? Não era nada, só uma costura trivial. Talvez fossem os olhos do menino queimando nas costas dele. Ou algo no fundo da gaveta, do passado, o peso de metal ainda ali, não deixando as mãos esquecerem.

— Então… o sinhô sabe até mexer bem, né? — arriscou o menino, tentando um diálogo.

— Shhh — silvou Augusto, concentrado. Não queria conversar.

Fixou os olhos na barriga do ursinho e começou enfim a alinhavar a abertura. Pontos largos, desajeitados. Cada vez que a agulha fincava no tecido, Augusto sentia uma pontada no próprio estômago. Quis atribuir à fome do meio-dia, mas não tinha certeza se era isso mesmo.

O menino fungava, talvez ansioso, talvez só catarro. Augusto ouvia seus pés mudando de posição na calçada, como se dançasse de impaciência. A costura andava devagar. Ponto. E mais um. E outro. E mais outro.

— Meu irmãozin vai ficar feliz… — comentou o menino quase num sussurro. — Ele chama o urso de Pimpo.

— Pimpo? Que nome… — Augusto quase riu pelo nariz, mas se conteve. — Está bem estragado. Não vai ficar bonito.

— Num tem problema… Ele só quer poder segurar o Pimpo pra dormir — disse o garoto, com uma leveza resignada, como quem sabe o valor das coisas remendadas.

Augusto assentiu com a cabeça, mas não respondeu. Mordeu a língua para não dizer mais nada. Deu o nó final na barriga do urso e cortou a linha com um canivete que usava para tudo. Em seguida, examinou a perninha solta. Precisaria de mais alguns pontos ali também.

Nesse momento, sentiu um toque leve em seu ombro. O mundo girou num tranco: ele não esperava. Num reflexo, Augusto se levantou bruscamente, virando-se com o canivete ainda na mão.

O menino tinha tomado coragem e entrado dois passos na sala escura, talvez para ver melhor. Ao se deparar com Augusto se erguendo feito um urso despertado, olhos arregalados e uma lâmina pequena na mão, o garoto deu um salto para trás.

Por um instante, ficaram congelados assim: Augusto com o canivete suspenso, o peito arfando, e o menino do outro lado da faixa de luz, com os olhos muito redondos de susto. Dois pontos negros, os olhos, fitando-o como os de um bicho acuado.

— Eu… eu só ia… — balbuciou o garoto.

Augusto sentiu o coração pulando como máquina descontrolada no peito. A adrenalina do susto misturada a outra coisa mais antiga, um medo antigo, subia-lhe à garganta. Ele piscou, voltando a si. Percebeu a cena: um homem feito com uma lâmina na mão, ameaçando um garoto.

Abaixou o canivete devagar. As mãos estavam marcadas de tão firmes que seguravam o metal.
— Não chegue por trás assim! — ele disse duro, mas a frase saiu tremida. — Quase te furei, muleque!

O menino assentiu rápido com a cabeça, engolindo seco. Augusto viu que ele tinha deixado cair de susto as moedas de antes; três círculos opacos brilhavam perto de seu pé descalço. Então ele percebeu outra coisa: o garoto mancava. Talvez por isso não tivesse escapado totalmente a tempo do reflexo de Augusto.

— Machucou? — Augusto perguntou de supetão, num tom quase áspero, apontando com o queixo para a perna do menino.

— Num foi nada não, sinhô — respondeu o menino, a voz fraca, coçando a canela ferida com o dedão do outro pé. Havia uma casca de machucado mal curado ali, parecia recente.

O homem trincou os dentes. Sentiu uma vontade súbita de gritar, xingar, mandar o menino para o inferno por tê-lo assustado assim. Queria despejar nele toda a raiva e toda a dor engasgadas dentro do peito durante anos. Anos.

Seu rosto chegou a se contorcer, as sobrancelhas franzindo sombrias, a boca abrindo para soltar um rugido. O garoto recuou mais um passo, tenso.

Mas nada saiu. A raiva subiu queimando e… murchou no ar, como um balão furado. Augusto sentiu foi um gosto salgado na língua. Maldição. Largou o canivete em cima da mesa e passou a mão tremendo no rosto inteiro, como se quisesse esfregar fora aquela expressão terrível. Quando tirou a mão, ele tremia não só nas mãos, mas nas pernas. Cambaleou para a cadeira e sentou, pesado.

Baixou a cabeça, encarando o ursinho que jazia no seu colo durante toda a confusão. O pobre Pimpo, com metade da barriga costurada e a perna ainda por consertar, olhando-o com seus olhos de botão inexpressivos. Dois pontos, duas pequenas esferas pretas, duas testemunhas silenciosas.

— Desculpa — murmurou Augusto, sem saber ao certo pra quem. Para o menino? Para o urso remendado? Ou para outras sombras invisíveis na sala?

O garoto nada disse. Continuava parado a poucos metros, quieto, na luz. Augusto afundou o rosto nas mãos por um segundo ou dois. Precisava recompor-se. Aquilo era vergonhoso: um homenzarrão ameaçando criança, quase tendo um troço no meio da sala.

Respirou fundo algumas vezes, sentindo o coração desacelerar. Quando conseguiu levantar o rosto de novo, viu que o garoto já estava junto a ele, bem perto, com o braço estendido. Na pequena mão suja, esticada para ele, havia um lenço amarrotado.

— Pra secar o rosto, sinhô — disse o menino, baixinho.

Só então Augusto percebeu que chorava. Uma lágrima grossa pendia de seu queixo, outra escorria perto do nariz. Ele pegou o lenço devagar, encostando o tecido ao rosto, enxugando sem força. O pano tinha cheiro de sol e rua.

— Eu me assustei também — disse o menino, tentando um sorriso mínimo, cúmplice. — Achei que o senhor ia me machucá… Mas tá tudo bem.

Augusto mordeu o lábio e assentiu em silêncio. Não confiava na própria voz agora, sob risco de desabar de vez.

Devagar, ele voltou ao trabalho. Com os olhos marejados ainda, alinhou a perninha do ursinho e retomou a costura. O menino agachou ali perto, observando quieto, sem mais se aproximar bruscamente.

Dessa vez, Augusto enfiou a agulha com mais firmeza. Fez ponto após ponto, e não tremeu. Em poucos minutos, Pimpo tinha novamente uma perna segura no lugar. Não era bonito o remendo, mas era forte.

Ele cortou a linha e entregou o urso ao menino, sem uma palavra. O garoto abraçou o brinquedo remendado com cuidado, como quem segura algo precioso.

Augusto esperou o menino virar e sair. Esperou um xingamento, uma ofensa, ou ao menos um olhar de reprovação ao se despedir. Nada. O garoto, com um gesto de inocência, recolheu suas três moedas do chão, guardou no bolso e mancou até a porta. Antes de sair de vez, virou-se para Augusto e falou, sincero:

— Obrigado, sinhô. De coração.

E lá se foi, apertando o ursinho contra o peito ossudo, com uma ligeira dificuldade no caminhar mas sem hesitar.

Augusto ficou vendo ele se afastar pela rua estreita até se tornar um vulto dissolvido na luz branca da tarde. Não conseguiu dizer nada em resposta. A porta continuava aberta; a claridade banhava toda a poeira da sala agora, expondo-a sem dó.

Ele encarou o retalho de brim que antes tentava costurar para si. Tantas tentativas frustradas. Puxou aquele tecido grosseiro e o atirou no chão com força.

Um grunhido escapou de sua garganta, um som rouco que reverberou pela casa vazia. Seu rosto queimava, mas ao mesmo tempo algo se desprendia no peito.

Se desprendia.

Doendo enquanto saía.

Augusto se levantou e foi até a porta aberta, pisando firme. Sentiu o calor do sol de fora morder-lhe a pele, os olhos arderam mas ele não desviou. Lá do outro lado da rua, uma vizinha observava com estranheza o homem que não saía de casa havia tempos. Ele a viu e quase riu de volta, um riso torto. Devia estar mesmo uma figura patética: camisa aberta, rosto inchado de choro, parado na luz como um fantasma saindo da tumba.

Ignorou o olhar da vizinha e voltou para dentro, deixando a porta escancarada dessa vez. O sol já entrava como instruso, pintando tudo com um amarelo impiedoso. A máquina de costura brilhava em pontos onde a tinta preta descascada revelava o metal. Ele se aproximou dela, lentamente.

Abriu de novo a gavetinha da máquina, aquela onde escondia o revólver. O pano de linho ainda cobria a arma parcialmente, mas agora dava pra ver o cano curto, opaco. Augusto sentiu a ponta dos dedos formigarem.

Por um momento longo, ficou olhando aquele objeto.

Quantas noites ele havia pensado em usá-lo? Em dar um fim em tudo, aliviar a dor e a culpa com um estampido? Eram incontáveis as vezes que, na calada da noite, com a cidade dormindo, ele abrira essa mesma gaveta e ficara só encarando o brilho metálico, a promessa fria de silêncio eterno. Dois pontos metálicos: o cano da arma mirando seu último alvo e o buraco do tambor vazio a seu lado.

Era só alinhar os dois pontos e resolver.

Augusto estendeu a mão devagar e pousou os dedos no cabo do revólver. Estava quente: o sol da porta aberta incidia ali agora, coisa que nunca acontecia quando vivia nas sombras. Quente como a vida lá fora.

Fechou a mão em torno do punho da arma e, num movimento decidido, retirou-a da gaveta. Pesou-a na palma. Os olhos arderam de novo, mas desta vez não era só a tristeza, era outra coisa também. Uma resolução inquieta.

Saiu para a rua com o revólver em punho, sem nem fechar a porta. Os passos dele ecoaram nas pedras da calçada irregular. A vizinha que espiava arregalou os olhos e correu para dentro ao vê-lo passar armado. Ele não ligou.

Adiante, dobrou a esquina em direção ao ferro-velho. Sabia onde ficava: a umas quatro quadras dali, uma velha oficina onde os meninos catadores entregavam seu fardo do dia em troca de migalhas. Seguiu por ruas que antes lhe pareciam estrangeiras, agora familiares sob seus pés decididos.

Encontrou o garoto já perto do pátio do ferro-velho, puxando sua carroça meio vazia. Ao perceber Augusto atrás de si, o menino se sobressaltou, quase soltando a carroça.

Augusto parou a dois passos dele.

O sol do meio da tarde fazia suor pingar da testa do homem e brilhava nos olhos assustados do garoto.

Ele ergueu a mão que carregava o revólver.

Viu o menino empalidecer, abraçar instintivamente o ursinho contra o peito, como um escudo inútil.

Dois pontos pretos novamente, aqueles olhos, o encarando.

Augusto então virou o cabo da arma para frente, estendendo a arma na direção do menino como quem oferece um presente incompreendido.

— Me faz um favor — disse, ofegante, a voz firme apesar do coração disparado. — Leva isso aqui. Vende lá dentro, no ferro-velho. Acho que vai te render um bom troco.

O garoto demorou uns segundos para reagir. Seus olhos iam da arma, para o rosto de Augusto, depois para o ursinho em seus braços.

— Vai, pega logo — insistiu Augusto, balançando a arma pelo cano, impaciente. — Antes que eu me arrependa.

Com muito cuidado, o menino soltou uma das mãos do urso e aceitou o revólver, segurando-o como quem pega em brasa.

— Mas… sinhô… — engasgou ele, sem saber o que dizer.

— Não é brinquedo, é coisa séria. Segura direito. Isso vale mais que garrafa velha. Vai te dar mais que algumas moedas. Vai dar pra uns muitos pães.

O garoto segurou a arma com as duas mãos agora, entendendo. Os olhinhos brilharam de um jeito diferente, e ele afirmou com a cabeça.

— Obrigado, sinhô… Eu prometo que…

Augusto ergueu a mão espalmada, interrompendo.
— Xiu. Some daqui. Vai.

O menino obedeceu. Virou-se e entrou com hesitação pelo portão do ferro-velho, olhando ainda para trás algumas vezes, até sumir lá dentro com a arma bem segura nas mãos.

Augusto ficou parado onde estava, sem avançar além. O coração batia selvagem no peito, e ele pôde ouvi-lo nos ouvidos, um tambor incessante. Lá dentro os adultos velhos que cuidavam do ferro velho encarava perplexos o homem que deu a arma para a criança vender, ainda incrédulos depois de ouvir a explicação do menino.

Augusto sentiu vontade de acender um cigarro, mas não tinha nenhum no bolso. Faz tempo largou disso. Olhou para o céu, que era de um azul impiedoso de verão. Talvez fosse a luz forte ou o alívio, mas uma tontura bateu e ele precisou escorar num poste. Ficou assim por um tempo, o concreto quente nas costas, esperando a cabeça parar de girar. Pôde ver o menino sair da padaria no final da rua com mais do que pães na sacola. Alguma família iria poder fazer a primeira refeição decente em dias.

Quando se sentiu capaz de andar, tomou o caminho de volta para casa. Os pés moviam-se leves, embora incertos, como se testassem um chão novo.

A porta de casa seguia aberta como deixara. Entrou. A poeira no ar agora parecia menos densa. Talvez por causa do sol entrando, talvez porque há pouco uma crianca havia respirado ali dentro, movendo o ar estagnado.

Augusto encarou a máquina de costura mais uma vez. A gaveta jazia aberta, escancarando o vazio onde antes a arma se escondia. Lá dentro só restavam as linhas, agulhas e alfinetes brilhando ao acaso. Ele pegou o pano de linho e o atirou por cima da arma invisível, tampando seu fantasma.

Em cima da mesa, o ursinho Pimpo não estava mais. Augusto lembrou que o menino o levava nos braços. Por reflexo, olhou ao redor, meio perdido, até avistar outra coisa caída perto da cadeira: o retalho de brim, aquele do seu conserto frustrado. Estava amassado e sujo agora. Ele o ergueu com os dedos, notando como o tecido era grosseiro e inflexível. Lembrou que era de uma antiga farda… sua, talvez? Não conseguia recordar.

Com repulsa, jogou o retalho de vez na lata de lixo que mantinha ao lado da mesa. O metal fez um som oco quando o pano pesado caiu lá dentro. Chega.

Por um instante, Augusto ficou de pé no meio da sala, sem saber o que fazer. O silêncio parecia diferente. Não exatamente mais leve, mas era diferente.

Ele ouviu seu estômago roncar. Ah, a fome. Um pão fresco, inteiro, quem sabe um pouco de manteiga… Ele teve que rir baixo da coincidência. Seria o primeiro alimento decente que se permitiria em dias.

Saiu novamente, trancando a porta dessa vez.

As chaves tilintaram na mão.

Olhou para a fachada envelhecida de sua casa sob o sol, respirou fundo e seguiu em frente, rua abaixo, em direção à padaria, enquanto dois passarinhos pousavam despreocupadas no fio acima dele, como dois pontos no céu claro.


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