A noite cai sobre Monte Escuro como um véu úmido, tingindo tudo numa penumbra fria. Você está parado sob a luz trêmula de um lampião de esquina, um sentinela cansado observando o reflexo distorcido da cidade numa poça d’água que repousa na calçada quebrada. O vento de outono atravessa seu casaco como se fossem agulhas, trazendo junto o sal do mar, a ferrugem dos armazéns e o murmúrio de um bairro que resiste no lugar de dormir. Nos becos em volta, sussurros, passos arrastados e risadas roucas se misturam em um estalar distante e fraquinho de garrafas nos bares. Mas por aqui, nesse ponto esquecido entre ruínas, o mundo segura a respiração. A solidão, e nada mais, responde ao seu silêncio.
Por um instante, o brilho da poça parece formar dois rostos de crianças olhando de volta para você, os rostos do seu irmão e da sua irmã. A visão dura apenas o tempo de um piscar. A superfície se desfaz em ondas pequenas, e leva então embora as feições e deixando só a água suja no lugar. Quase dois anos desde o desaparecimento deles, e mesmo assim você retorna a este ponto da cidade toda noite, como se algo aqui tivesse deixado um vestígio que tenha passado despercebido. Uma pressão familiar cresce no peito, pesada e fria, daquelas que não se sabe como explicar, não tem forma definida, mas você sabe está ali. Há momentos em que você imagina onde poderiam estar, não é porque você realmente acredita ser uma possibilidade concreta, está mais pata um espaço vazio que se move junto com você. O nada age em silêncio, tão paciente, mordendo devagar a parte de dentro do seu pensamento